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Posts Tagged ‘trabalho’

Esse post é fruto de uma discussão feita nos comentários de um outro post – O Lazer do Trabalhador: https://sagaz.wordpress.com/2011/06/11/o-lazer-do-trabalhador-2/ – ao qual foram sucitadas algumas questões por um leitor, bem como provocações teóricas ao marxismo. Não postaremos aqui toda a discussão por ter sido um tanto longa, mas para quem tiver interesse é só clicar no link já indicado. Nos ateremos, devido entendermos ser de muita valia e enriquecedor, alguns esclarecimentos teórico-conceituais que foram feitos em resposta as provocações do também já comentado leitor. Passemos ao texto.

Para não cairmos em erros crassos e tolos, faz-se sempre interessante – como a acusação de que Marx não seria conhecedor da história -, localizarmos o pensador em seu devido contexto e sobre o quê o mesmo fala. Vejamos.

Para sermos justos e honestos intelectualmente, ou mesmo honestos com o conhecimento, precisamos bem datar as coisas. Marx é um autor que está pensando o desenvolvimento do modo de produção capitalista na modernidade. Já aqui, a “tese” de que Marx não conhecia a história é facilmente refutada, no que diz respeito o autor classificar o mundo de acordo com o trabalho, tal qual ele o entende modernamente e inserido no capitalismo. É bem verdade que ele tem uma perspectiva antropológica do trabalho como característica central humana, isto é, o momento em que o homem é capaz de intervir na natureza de modo a transformá-la bem como dominá-la para emancipar-se. Nisto, o que ele está colocando não se trata do trabalho que é puro dispêndio de energia, ou seja, a categoria labor (homo laborans) que a Hannah Arendt define como aquilo que degenera o homem. O trabalho tanto para Marx quanto para Arendt é a capacidade que o homem possui de deixar a sua marca na natureza, sendo assim, o trabalho em sentido amplo para Marx se aproxima do que, erroneamente, alguns colocam como negação dos gregos para o humano. Ou seja, o trabalho é toda e qualquer atividade criativa que o homem exerce com vistas a transformar e dar sentido as coisas, seja esta atividade braçal e/ou contemplativa. O trabalho, desse modo, não se confunde com o momento moderno do modo de produção capitalista que submeteu o homem a vender sua força de trabalho de modo a explorar a mesma. Momento esse a que se debruça Marx criticando e denunciando severamente o que a revolução industrial trouxe para os homens, condicionando-os de modo a aliená-los, isto é, separá-los dos meios de produzir sua própria subsistência. Marx está preocupado com a exploração da força de trabalho. Já podemos, então, delimitar bem o conceito marxiano quanto ao trabalho, se o contextualizarmos na configuração do modo de produção capitalista.

Façamos algumas digressões para bem matizar algumas questões.

Maquiavel (séc. XVI – 1513 quando publica O Príncipe) em sua perspectiva político-histórica e filosófica, divide o mundo em dois grupos (definindo os homens como seres de apetites, o que se constitui, também, numa construção antropológica): os optimate – os grandes, os ricos, os nobres e, portanto, poucos – e o populum – os muitos, a plebe, a ralé. Daí já podemos observar que a característica central do mundo humano-social é o conflito, haja vista que os interesses dos muitos se chocam com os interesses desses poucos que apenas querem manter o que têm – e para isso vêem a necessidade de oprimir os muitos -, em contrapartida, os muitos possuem o interesse ou, para falar em termos maquiavelianos, o apetite do ter – ter o necessário para a sobrevivência. Seria maquiavelismo meu deduzir que isto já é um esboço da tese da exploração marxista que culmina na teoria da luta de classes? Seria ser maquiavélico pensar que, a denúncia de Maquiavel é justamente essa, qual seja a de muitos serem submetidos a condições aviltantes de existência para o patrocínio do luxo ostensivo dos ditos nobres? Tudo bem, hão de me objetar que o mundo era entendido por outra lógica, àquela teológica onde o direito divino define o lugar de cada um no mundo. Mas isto anula o fato do homem explorar o homem o que, em última instância, caracteriza o conflito? E este conflito não seria mesmo proporcionado por dois grupos antagônicos – no caso de Aristóteles a aristocracia X escravos, no caso de Maquiavel os optimates X populum, no caso de Marx a burguesia X proletariado -?

Em meados do séc. XVII, Hobbes (1651 – ano de publicação do Leviatã), em seu constructo também antropológico, define o homem pelas suas paixões. Sendo assim, o homem é movido por duas paixões: o medo e a esperança. Medo haja vista sua condição de solitário e, portanto, de guerra de todos contra todos. À medida que o homem precisa prover a sua sobrevivência, já podemos vislumbrar o trabalho como elemento essencial a vida do próprio. É de suas mãos, de suas capacidades, que ele irá prover o necessário a sua subsistência. O que está em pauta, para Hobbes que nem de longe está preocupado com o capitalismo – nem poderia -, poderíamos dizer que é a condição do homem enquanto agente, o que para Marx seria o sujeito, aquele homem que é livre, autônomo e independente. Bem, a denúncia de Marx incide justamente neste ponto, posto que o modo de produção capitalista fez o contrário, aprisionou o homem em um sistema que o explora e produz desigualdades as mais vis. Ingenuidade seria pensar que esse sistema simplesmente surgiu como no fiat divino da criação. A história do mundo se define por aqueles que mandam e aqueles que obedecem, já dizia Weber – não sem revoltas as mais sangrentas por parte dos subjugados. Neste sentido a tese classista de Marx é não apenas histórica, mas de igual modo atual. Talvez não entre duas classes como enxergava Marx, mas entre grupos de poder presentes na sociedade, se digladiando de modo a afirmar a sua ideologia. Oras o que seria a Grécia senão a ideologia vencedora dos bons (no sentido daqueles aptos a serem cidadãos, em outras palavras, aptos a vida pública e, por isso, os “destinados” – lembremos que o mundo grego é uma cosmologia onde a comunidade antecede o indivíduo – a viverem em política, enquanto os demais, os não gregos, os escravos e as mulheres, relegados a outro espaço) contra a fragilidade material daqueles – escravos, mulheres e não gregos – em contrapor a tirania?

Perigoso é analisar a contemporaneidade sem fazer as devidas ressalvas históricas, identificar as rupturas e, também, observar – caso exista – as continuidades. O mundo para o qual se voltam às lentes de Marx não é o mundo grego, muito embora ele esboce comparações, tão pouco o mundo do nosso tempo. No entanto isto não invalida sua análise nem desqualifica muitas de suas proposições. O Marx economicista é apenas àquele a que estudiosos posteriores a ele se apropriaram de algumas de suas ideias e tendenciaram sua análise a um prisma. Antes de concluir Marx pelos quase infindos marximos, é bem mais interessante ler o próprio. Que se façam críticas, acréscimos, ponderações e até mesmo correções, como a própria Arendt faz ao Marx. É válido e extremamente enriquecedor. Apontar os limites de um pensamento teórico nos faz avançar, como da mesma forma, apontar as contribuições deste mesmo pensamento na compreensão de nosso mundo, é ser honesto com o conhecimento.

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Estava pensando seriamente em parar de publicar aqui no Sagaz.

Sabe, estes assuntos de trabalho demais, preocupação demais, horário, qualidade, conteúdo… responsabilidade.

Estava pensando em montar um Disk Pizza.

Pensei: é moleza!

Comprar uns troços, jogar os troços em cima do disco de pizza, levar ao forno e ir pro abraço.

Refleti, repensei, ponderei, pesquisei… e me assustei.

Olhe só:

Tinha, numa sentada só, de me transformar em empresário, gerente, administrador, economista, gestor de recursos humanos, cozinheiro, pizzaiolo, comprador, peniqueiro, vendedor, contador, patrão… e empregado de um monte de empresas.

Acompanhar o preço da farinha; qualidade da mussarela; origem do presunto; fornecedor de tomate, cebola, palmito, atum, manjericão, calabresa, bacalhau, um monte de queijos, ovo, pimentão, fermento, azeite, orégano…

Me virar com as despesas com aluguel, energia elétrica, água, gás, telefone, material de limpeza, papel higiênico, manutenção, impostos para o governo, encargos trabalhistas, contador… propina para os fiscais do governo.

Socorro!

Deus me livre!

Não nasci para os negócios!

Não nasci para ser parte da engrenagem maluca da economia do sistema capitalista.

Vou continuar sendo blogueiro.

Que é a única coisa que eu sei fazer.

1/2 que torto.

Mas pelo menos não tenho patrão nem sou patrão de ninguém.

Graças a Deus!

E, ademais, eu morro de medo de trabalhar.

Chega a me dar coceira.

Eu, hem!

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Para Karl Marx, grande crítico do sistema capitalista, o trabalho não era algo a ser abolido, sendo um problema maior a exploração em si. Para o autor, a atividade do trabalho é uma condição da existência humana, independente de qual seja a fórmula da sociedade, sendo a mesma uma necessidade entre o homem e a natureza. Hannah Arendt também defende uma postura semelhante, dividindo a condição humana entre ação, labor e trabalho.

Porém, atualmente, no capitalismo o trabalho tem adquirido proporções esquizofrênicas, invadindo o âmbito do lazer e do consumo.

Horário de trabalho
O momento de folga para muitos, não representa necessariamente o de lazer. O ócio vai ficando para trás. Mesmo quando não se está no trabalho, os consumidores passam a maior parte do seu tempo em atividades domésticas.

Muitas vezes trabalhando de ‘graça’ para determinadas empresas, o consumidor reserva suas passagens, vai ao supermercado, enche seu carrinho, enfrenta enormes filas, instala seus próprios programas no computador ou conserta algum objeto danificado.

Mas essas funções são tidas como uma opção do trabalhador. É lógico que essas horas extras não são pagas diariamente, mas pelo menos se economiza o salário. O melhor de tudo é que os trabalhos nas horas vagas não tem perigo de levar ao desemprego A princípio tudo isso gera um mal-estar para o consumidor-trabalhador; mas logo suas tarefas passam a ser considerado um ato-heroico e de livre escolha.

Enquanto uma automação dos serviços prestados ao consumidor não se torna eficiente, resta a ele ser atendido por um serviço obsoleto, como é o caso de muitos telemarketings que após uma longa e tediosa espera o saúda com um “obrigado por sua preferência”.

Inevitavelmente, dentro desse sistema de panes, o consumidor se torna cada vez mais trabalhador, afastando-se das suas horas de descanso, sendo empurrado e obrigado a fazer diversas atividades por conta própria, adquirindo assim, o lazer de trabalhar.

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Eu queria tanto, Kualina Lésia, que você se libertasse da sua condição de mulher!

Mas, porra, como é difícil!

O mundo inteiro tá querendo matar o patriarcado/machismo e você, vítima numerada na testa, o defende com o fio das suas garras.

Não sei mais o que fazer!

Acho que vou decretar: você, Kualina – minha companheira – está livre!

Você é uma mulher livre, não de mim que nunca fui seu dono, mas da sua subserviência aos padrões masculinos.

(…)

Não, eu não bebi!

Nem estou doido!

Nem deixei de te amar!

E, por favor, não precisa se matar!

Tudo bem, volte pra sua cela!

Deixa de trabalhar!

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O sonho de consumo

Quando eu me aproximei foi amor à primeira vista, Lá estava: último modelo,  quentinha, direto da fábrica. O sonho de qualquer fotógrafo. Nada escapava ao seu click. Impossível resistir aos seus encantos.

Mas esse era um objeto de consumo de poucos. Não era o meu caso. Desanimado fui embora.

Com o tempo tentei parar de pensar naquele produto…

Não consegui. Pra tudo que eu olhava, ela estava lá: quando eu assistia a um filme ou olhava uma foto de revista, nas conversas com os amigos; esse assunto sempre vinha à tona.

Resolvi fazer hora extra. O empenho no trabalho passou a ser determinado com o rigor de um devoto religioso tentando alcançar o paraíso perdido. De domingo a domingo, todos os meus esforços eram voltados para alcançar o meu sonho de consumo.

De vez em quando, eu aparecia em frente da loja e ficava ali namorando, pensando em como seria quando comprasse aquela belezura! Por um ano eu aparecia na vitrine. Porém,  certo dia ela não estava mais lá. Desesperado, perguntei ao vendedor que fim aquele produto teve. O vendedor disse que apenas tirou da parte da frente, pois ainda não tinha achado um comprador. Foi então que pensei que eu seria o felizardo.

Depois de juntar muito dinheiro, chegou o tão sonhado dia. Finalmente eu consegui. A meta foi alcançada. Tirei fotos de diversos lugares e pessoas. Estava feliz. Pensava em um dia trabalhar em alguma agência de modelos, empresa de design, jornal ou algo do tipo.

Uma semana depois ao passar em frente daquela loja, tomei um susto: Um novo modelo, mais compacto, com o dobro das qualidades da minha antiga e obsoleta câmera de fotografar. Eu preciso adquirir aquele produto. Um novo objetivo fora traçado.

Foi então que novamente, comecei a sonhar.

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De início, o trabalho do homem pega uma pequena parcela da terra sendo que é impossível usufruir tudo.

O dinheiro não seria necessário caso houvesse sempre tamanha abundância para aqueles que usassem do mesmo esforço. É no trabalho que se estabelece o valor entre as coisas.

De certo aquele que se apropria da terra através do seu trabalho, aumenta as reservas da humanidade, pois aumenta a cultuação daquele acre. As terras incultas rendem um pouco mais de valor que o nada.

Com o tempo através do dinheiro e das leis, as diversas comunidades estabeleceram limites da propriedade através de pactos e acordos, todos legitimados através do trabalho.

Mesmo assim, há uma grande parcela de solo disponível. Aqueles que no começo tinham as propriedades coletadas na natureza, deveriam cuidar delas para que não estragasse antes de usar.

Locke afirma que acumular pedras preciosas é justificável, pois o exagero dos limites da propriedade não reside na extensão de sua posse e sim no perecimento inútil da mesma. Desse modo institui-se o uso do dinheiro, um instrumento durável que pode ser utilizado sem estragar.

Isso possibilitou o acúmulo de recursos e que os homens aumentasse suas posses.

Dessa forma, com as diferenças de possibilidades do uso de terra, alguém pode possuir justamente mais que outro.

Fonte: Dois Tratados do Governo Civil – Jhon Locke – Ed. Martins Fontes

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Responda-me uma coisa, você não acha que o mundo está ficando chato?

Parece que a única lógica do mundo é produzir, produzir e produzir…

Hoje em dia a mídia diz para você dormir no horário certo, ter todos os cuidados com sua alimentação, postura, estar sempre sorrindo, nunca triste, saber trabalhar em equipe, saber argumentar, ter um currículo pra lá de recheado… Ou seja, ser um super-herói, ou melhor, quase um Deus.

Em algumas empresas, se você sair de férias será mal visto pelo seu chefe e por muitos dos seus companheiros de trabalho. Perigosamente você poderá ser substituído. A moda agora é saber vestir a camisa da empresa e suar muito, de preferência até a última gota do seu sangue.

Como uma religião, a busca pelo dinheiro é insaciável, o lazer, bem… Esse fica para segundo, terceiro, quarto ou último plano.

Tudo isso me remete a uma frase de Shakespeare em Timão de Atenas:

“Ouro, precioso ouro, amarelo e brilhante!
Um pouco dele fará dos pretos, brancos;
dos tolos sábios; Do mal, bem, do vil ,nobre
do velho, jovem, do covarde, valente…

Enquanto isso a maior parte da população mundial, continua sendo marginalizada, em busca de um sub-emprego qualquer para que seja possível comprar algo para comer ou calçar.

As cidades continuam crescendo como um câncer, as pequenas empresas são engolidas e as multinacionais, no geral, prosperam cada dia mais… Vivemos na era da produção, cujas grandes corporações são o carro chefe!

Entre trustes, cartéis e lobbys quem sai perdendo são os trabalhadores, que precisam entrar na dança das cadeiras e sentar rápido para inevitavelmente tornar-se a entrar na dança.

E assim caminha a humanidade rumo a um fundamentalismo econômico! É dai pra pior! Pelo menos para a maioria! Será que não está na hora de alguém criar coragem e começar a escrever o “2084” ou o “Admirável mundo mais que novo”?

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