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Posts Tagged ‘justiça’

Na Itália, o ex-premiê Massimo d’Alema, da oposição centro-esquerda, declarou: “Não se celebra a morte de um homem. Talvez se Bin Laden tivesse sido capturado e levado a julgamento, teria sido uma vitória mais significativa”.

“(…) Estou aliviada de certa maneira, mas tenho o sentimento de incerteza agora… Acredito na justiça… mas vocês não acham que olho por olho e o mundo se tornará cego?” Katy Perry, cantora norte-americana, em seu perfil no Twitter.

Deixando um pouco de lado as investigações e especulações – por vezes fantasiosas e conspiratórias demais – sobre a morte do terrorista, quero falar especificamente sobre a repercussão da notícia nos Estados Unidos e toda a festividade que causou. Na realidade, diante do que o mundo pôde ver, não há muito o que ser dito. Assim como me soou assustador quando vi, em alguns lugares do Oriente, toda a comemoração pelo atentado de 11 de setembro, essa euforia manifesta nas ruas, tendo como razão a morte, me causa o mesmo assombro. Não quero fazer vista grossa para a ameaça que o Bin Laden representava para o mundo, tão pouco isentá-lo de tantos crimes que cometeu, não seria estúpido a tal ponto.

Quando li os dois comentários que citei acima sobre o acontecido, fiquei reflexivo. Interessante notar duas pessoas de áreas completamente diversas, sem qualquer ligação, demonstrarem essencialmente o mesmo sentimento de espanto e reprovação diante da verdadeira panacéia comemorativa que tomou conta dos norte-americanos numa demonstração assustadora de sede por sangue. Mas claro, a maior potência militar do mundo só poderia produzir cidadãos tão belicosos quanto. Ironia a parte, penso que o assunto é muito, mas muito sério.

“Que sociedade é esta em que vivemos na qual um assassinato é motivo de comemoração? Qual a grande diferença entre nós e a barbárie reinante em outras épocas nas quais o suplício era utilizado como punição?” Questões como essas são levantas pela cientista social Isabella Jinkings que vê claramente a reprodução da máxima “olho por olho, dente por dente”, presente no Código de Hamurabi (a.C.) e, posteriormente, incorporado a Torá – Lei de Moisés. Preocupante, como ela nos alerta, é vermos isso se materializar num país que diz levantar a bandeira dos Direitos Humanos e da Democracia. Alarmante é ver a prática da justiça sendo confundida com assassinato. Concordo com o d’Alema quando diz que a vitória teria sido muito mais significativa se um julgamento tivesse ocorrido. E também concordo com a inquietação da Katy Perry.

Se houve alguma participação, direta ou indireta de setores da inteligência dos Estados Unidos, nos atentados de 11 de Setembro – suspeita levantada por inúmeros veículos de comunicação -, se de fato o Bin Laden foi assassinado, haja vista as especulações quanto ao momento que isso aconteceu (crise do governo Obama, o que algo como a morte do homem mais procurado do mundo serviria para recuperar a popularidade do presidente), se tornam secundárias, como afirma a já citada cientista social. O que salta aos nossos olhos diante dessas questões é notar a condição pela qual nós humanos estamos funcionando.

Não quero aqui eleger os norte-americanos como bode expiatório. Comentei acima do mesmo espanto que me causou a euforia de povos do Oriente ao saber dos ataques às torres gêmeas. Não compreendo muito bem a que tipo de valor moral as diversas culturas estão submetidas. Nem poderia, é coisa grandiosa demais para compreender. Mas não consigo não ver a vingança no horizonte de nossa condição, muito embora tantas leis e tratados tenham sido elaborados no sentido de frear esse que parece ser um ímpeto humano. E estou selecionando apenas um acontecimento de nossos tempos que acredito ilustrar bem meu ponto de vista.

Veja, não que o sentimento de vingança seja a raiz da questão, o problema, me parece, estar em ser uma “vingança vermelha”, onde a vida pouco importa e que, ainda por cima, se arvora como justiça. Fica a pergunta: Que humanidade é essa que forma tais mentalidades?

Como disse uma amiga (Ly Barreto), em conversa: “Felicidade para quem comemora! Ódio para quem perde… E assim caminha a humanidade!” Acredito que podemos até vislumbrar onde isso vai dar. Pesarosamente triste fico.

Fonte: http://www.isabellajinkings.com.br/wordpress/?p=435

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Entre colchões queimados, gritos raivosos, centenas de presos começam a bater com suas canecas nas grades. Uma rebelião tem início.

Em 1769 o Brasil terminou de construir seu primeiro presídio na cidade do Rio de Janeiro. No início do séc. XIX começou a surgir o problema que até hoje assola a sociedade brasileira: a superlotação de presídios.

Além da superlotação carcerária, uma rebelião pode começar através de inúmeros motivos como: violência e injustiças praticadas entre os presos, falta de capacitação e um salário justo para os agentes penitenciários, demora nos benefícios e problemas ligados a corrupção.

O resultado quase sempre é fatal. Através de algo próximo ao que o filósofo Inglês Thomas Hobbes chama de estado de natureza, o presidiário age através dos seus impulsos de conservação e em função do seu medo. Dentro desse conflito surge uma guerra de todos contra todos no qual torna a vida dos presos é brutal, miserável e breve. Nessa situação não existe senso de justiça ou injustiça, mas somente a guerra penitenciária.

A maior rebelião no Brasil aconteceu no Carandiru em 1992. Por motivos fúteis (alguns dizem que por causa de um varal) os presos começaram a brigar. Quando o batalhão de choque entrou 111 detentos foram mortos, a maioria através de tiros de fuzis, metralhadoras e pistolas automáticas. O episódio repercutiu no mundo inteiro e ficou conhecido como o massacre do Carandiru.

Conseqüentemente as leis de execuções penais (LEP) que visam garantir assistência educacional, médica, social, religiosa e material não passam de letra morta em nossa constituição. Entre inúmeras rebeliões, os presos degolam seus companheiros, arrancam suas cabeças para depois enfiarem em uma estaca para ser exibida como troféu.

O mais cruel é que o sistema penitenciário brasileiro, no geral, não busca a reintegração do indivíduo na sociedade. Para se ter uma idéia, a maioria dos presos (algo em torno de 80%) após cumprir sua pena comete algum tipo de crime. O sistema prisional beira ao caos, no qual muitas vezes até direitos básicos como a vida, não é preservada pelo Estado.

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Tempo de esbórnia

É o momento de comemorar! Chega de problemas vamos à farra! Coma e beba insaciavelmente, até cair de felicidade! Mas essa festa é exclusiva aos bem nascidos. Ao povo só resta a luta…

Desde o Brasil colonial, enquanto o negro foi açoitado, eu levava uma vida de rei! Enquanto os índios foram exterminados, eu estava na noitada! E entre muitas guerras e sob uma montanha de corpos, brindemos! Vamos brindar! O mundo mudou, nada mudou!

Na história do eterno retorno, estamos sempre evoluindo. Não é verdade? Não tem o que comemorar? Existem pessoas morrendo de fome? Não existe justiça? Os problemas de hoje são enrustidos?

Pare! Esqueça tudo isso! Não estou ouvindo… Chega de filosofias, eu só quero saber de orgias. Eu quero colocar fogo em Roma!

Esbórnia

Mas um dia desses, quando estava de ressaca, não consegui dormir! Coloquei a cabeça no travesseiro e tudo pesou uma tonelada! Como pude esquecer dos oprimidos, meu Deus!

A partir de amanhã, depois da esbórnia toda a minha demagogia vai ser posta em prática:

– Pode-se enganar algumas pessoas todo o tempo; Pode-se enganar todas as pessoas algum tempo; Mas não se pode enganar todas as pessoas o tempo todo!

E quem acreditou nisso, não entende que hoje, mais do que nunca, é tempo de esbórnia.

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