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Posts Tagged ‘dor’

Pois é pensamento

Estás aí caído

Tentando disfarçar

A dor do peito

Da inútil jactância

Pérfida, corrosiva, voraz

Acorda dessa medonha

Disfarçatez imbecil

Enche esse peito

De dignidade e nobreza

Inclina essa serviz

Liberta-te dessa fatídica

Existência de mediocridade

De piedade e arrogância

Olha a tua volta

E se renda a verdade

Da beleza do outro

Da delicatez simplória

Invista-se, permita-se, desloque-se

Ao menos na tentativa

De enxergar, ver, olhar

Esbraveja logo tudo

É inevitável a queda

Mas sossega, sim

No movimento da vida

Não há justo, injusto

Apenas susto, assusto

Nada mais que fluxo, refluxo

Acontece, esquece

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A respeito de navios

Meu canto, amada,
passeia pela cidade sem alma
e descansa no porto.

A fome, embrutecida mulher,
discursa calma na periferia do porto
e espalha com pressa
sua doce mentira.

O trigo não alimenta
ele abastece de ouro
o estômago dos navios
e derrama o suor salgado do homem
no oceano de sal.

Ao longe, amada,
os guindastes transportam
o sofrimento humano
em pesadas cargas.

Os navios, criaturas pré-históricas,
chegam e partem
trazendo e levando em cada saco
em cada container
um pedaço de alma
um pedaço de corpo
um pedaço de vida.

E ninguém se importa.
Ninguém percebe o sofrimento duro
que os navios transportam.

Os homens procuram comida
(uns nos bares, outros nos lixos)
e comem suas feridas estampadas no bife
e no pão amanhecido.

Estou apreensivo, amada,
amargurado e pensativo
sentado no cais infinito.

Não penso em navios
nem em trigo
nem em feridas.

Penso na alma dos homens
suas vidas tristes
seus olhos sem ritmo
seus corpos anfíbios.

Penso neles, amada,
e no espelho das águas,
à beira do cais,
sou um deles
a vigiar navios.

Ah, amada,
como sou patético
a contar navios e navios
de sofrimento humano
como quem conta estrelas.

E o que importa isso?
Nada os detêm.
Nada os interceptam.

Longe, agora pequeninos,
eles avançam nas águas
carregados de dores
e sem qualquer importância
caem um a um
no abismo azul e profundo
do horizonte sem fim.

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Quando nasci, no momento da dor, do rompimento do meu elo com a minha mãe, no momento do tapa, do choro… eu me perguntei:

Autor: Adriano Cardoso

Nascer é somente isto?

E lá na frente, quando sozinho me vi na escola, sem o apoio da minha mãe, do meu pai, os colegas infernizando… eu me perguntei:

Sentir-se sozinho é somente isto?

E depois, na formatura da universidade, no meio da festa, da euforia, eu me olhei no espelho, e segurando o diploma bonito… eu me perguntei:

Sentir-se realizado é somente isto?

E quando arrumei um emprego, o salário dos sonhos, poder, futuro garantido, olhando da janela para o topo da cidade sem fim… eu me perguntei:

Ser alguém na vida é somente isto?

E, um dia, diante do mar, o verde, o ir e vir, a espuma branca no fundo dos meus olhos, sentindo a alma vibrar… eu me perguntei:

A beleza é somente isto?

E quando o meu amor me deixou, eu, por meses, desesperado, pensei que fosse morrer, mas quando não morri, sentindo meu coração que sofria… eu me perguntei:

O amor é somente isto?

E quando no desemprego, na queda do topo do mundo, eu me vi no chão da cidade dura, com os meus pés no chão, olhando minhas roupas rotas… eu me perguntei:

O fracasso é somente isto?

Doente, sem meios de curar a dor, a dor lancinante que comia o meu corpo, dilacerava minha alma, quando me vi numa cama… eu me perguntei:

A dor é somente isto?

E um dia, os olhos fechando, a vida se esvaindo aos poucos, um som rouco na garganta, sentindo o coração que parava… eu me perguntei:

A morte é somente isto?

A vida é somente isto?

E eu sou somente isto?

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