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Archive for the ‘Social’ Category

Fim do blog – Novo blog

Infelizmente,  escrevo para notificar o fim do Sagaz. Devido a falta de tempo e também pelos posts ter várias temáticas que não se entrelaçavam, o blog não conseguiu estabelecer uma identidade própria e acabou perdendo todo o sentido para mim.

Não pretendo deletar o seu conteúdo e deixo os posts desses quase 3 anos de existência disponível para quem quiser acessá-lo. Agradeço a todos que escreveram e compartilharam experiências durante toda a vida do Sagaz.

Criei um blog que talvez tenha mais a ver comigo. Segue o endereço para quem quiser acompanhar os meus novos escritos.

www.tramasocial.wordpress.com

att.

Inã Cândido

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Esse post é fruto de uma discussão feita nos comentários de um outro post – O Lazer do Trabalhador: https://sagaz.wordpress.com/2011/06/11/o-lazer-do-trabalhador-2/ – ao qual foram sucitadas algumas questões por um leitor, bem como provocações teóricas ao marxismo. Não postaremos aqui toda a discussão por ter sido um tanto longa, mas para quem tiver interesse é só clicar no link já indicado. Nos ateremos, devido entendermos ser de muita valia e enriquecedor, alguns esclarecimentos teórico-conceituais que foram feitos em resposta as provocações do também já comentado leitor. Passemos ao texto.

Para não cairmos em erros crassos e tolos, faz-se sempre interessante – como a acusação de que Marx não seria conhecedor da história -, localizarmos o pensador em seu devido contexto e sobre o quê o mesmo fala. Vejamos.

Para sermos justos e honestos intelectualmente, ou mesmo honestos com o conhecimento, precisamos bem datar as coisas. Marx é um autor que está pensando o desenvolvimento do modo de produção capitalista na modernidade. Já aqui, a “tese” de que Marx não conhecia a história é facilmente refutada, no que diz respeito o autor classificar o mundo de acordo com o trabalho, tal qual ele o entende modernamente e inserido no capitalismo. É bem verdade que ele tem uma perspectiva antropológica do trabalho como característica central humana, isto é, o momento em que o homem é capaz de intervir na natureza de modo a transformá-la bem como dominá-la para emancipar-se. Nisto, o que ele está colocando não se trata do trabalho que é puro dispêndio de energia, ou seja, a categoria labor (homo laborans) que a Hannah Arendt define como aquilo que degenera o homem. O trabalho tanto para Marx quanto para Arendt é a capacidade que o homem possui de deixar a sua marca na natureza, sendo assim, o trabalho em sentido amplo para Marx se aproxima do que, erroneamente, alguns colocam como negação dos gregos para o humano. Ou seja, o trabalho é toda e qualquer atividade criativa que o homem exerce com vistas a transformar e dar sentido as coisas, seja esta atividade braçal e/ou contemplativa. O trabalho, desse modo, não se confunde com o momento moderno do modo de produção capitalista que submeteu o homem a vender sua força de trabalho de modo a explorar a mesma. Momento esse a que se debruça Marx criticando e denunciando severamente o que a revolução industrial trouxe para os homens, condicionando-os de modo a aliená-los, isto é, separá-los dos meios de produzir sua própria subsistência. Marx está preocupado com a exploração da força de trabalho. Já podemos, então, delimitar bem o conceito marxiano quanto ao trabalho, se o contextualizarmos na configuração do modo de produção capitalista.

Façamos algumas digressões para bem matizar algumas questões.

Maquiavel (séc. XVI – 1513 quando publica O Príncipe) em sua perspectiva político-histórica e filosófica, divide o mundo em dois grupos (definindo os homens como seres de apetites, o que se constitui, também, numa construção antropológica): os optimate – os grandes, os ricos, os nobres e, portanto, poucos – e o populum – os muitos, a plebe, a ralé. Daí já podemos observar que a característica central do mundo humano-social é o conflito, haja vista que os interesses dos muitos se chocam com os interesses desses poucos que apenas querem manter o que têm – e para isso vêem a necessidade de oprimir os muitos -, em contrapartida, os muitos possuem o interesse ou, para falar em termos maquiavelianos, o apetite do ter – ter o necessário para a sobrevivência. Seria maquiavelismo meu deduzir que isto já é um esboço da tese da exploração marxista que culmina na teoria da luta de classes? Seria ser maquiavélico pensar que, a denúncia de Maquiavel é justamente essa, qual seja a de muitos serem submetidos a condições aviltantes de existência para o patrocínio do luxo ostensivo dos ditos nobres? Tudo bem, hão de me objetar que o mundo era entendido por outra lógica, àquela teológica onde o direito divino define o lugar de cada um no mundo. Mas isto anula o fato do homem explorar o homem o que, em última instância, caracteriza o conflito? E este conflito não seria mesmo proporcionado por dois grupos antagônicos – no caso de Aristóteles a aristocracia X escravos, no caso de Maquiavel os optimates X populum, no caso de Marx a burguesia X proletariado -?

Em meados do séc. XVII, Hobbes (1651 – ano de publicação do Leviatã), em seu constructo também antropológico, define o homem pelas suas paixões. Sendo assim, o homem é movido por duas paixões: o medo e a esperança. Medo haja vista sua condição de solitário e, portanto, de guerra de todos contra todos. À medida que o homem precisa prover a sua sobrevivência, já podemos vislumbrar o trabalho como elemento essencial a vida do próprio. É de suas mãos, de suas capacidades, que ele irá prover o necessário a sua subsistência. O que está em pauta, para Hobbes que nem de longe está preocupado com o capitalismo – nem poderia -, poderíamos dizer que é a condição do homem enquanto agente, o que para Marx seria o sujeito, aquele homem que é livre, autônomo e independente. Bem, a denúncia de Marx incide justamente neste ponto, posto que o modo de produção capitalista fez o contrário, aprisionou o homem em um sistema que o explora e produz desigualdades as mais vis. Ingenuidade seria pensar que esse sistema simplesmente surgiu como no fiat divino da criação. A história do mundo se define por aqueles que mandam e aqueles que obedecem, já dizia Weber – não sem revoltas as mais sangrentas por parte dos subjugados. Neste sentido a tese classista de Marx é não apenas histórica, mas de igual modo atual. Talvez não entre duas classes como enxergava Marx, mas entre grupos de poder presentes na sociedade, se digladiando de modo a afirmar a sua ideologia. Oras o que seria a Grécia senão a ideologia vencedora dos bons (no sentido daqueles aptos a serem cidadãos, em outras palavras, aptos a vida pública e, por isso, os “destinados” – lembremos que o mundo grego é uma cosmologia onde a comunidade antecede o indivíduo – a viverem em política, enquanto os demais, os não gregos, os escravos e as mulheres, relegados a outro espaço) contra a fragilidade material daqueles – escravos, mulheres e não gregos – em contrapor a tirania?

Perigoso é analisar a contemporaneidade sem fazer as devidas ressalvas históricas, identificar as rupturas e, também, observar – caso exista – as continuidades. O mundo para o qual se voltam às lentes de Marx não é o mundo grego, muito embora ele esboce comparações, tão pouco o mundo do nosso tempo. No entanto isto não invalida sua análise nem desqualifica muitas de suas proposições. O Marx economicista é apenas àquele a que estudiosos posteriores a ele se apropriaram de algumas de suas ideias e tendenciaram sua análise a um prisma. Antes de concluir Marx pelos quase infindos marximos, é bem mais interessante ler o próprio. Que se façam críticas, acréscimos, ponderações e até mesmo correções, como a própria Arendt faz ao Marx. É válido e extremamente enriquecedor. Apontar os limites de um pensamento teórico nos faz avançar, como da mesma forma, apontar as contribuições deste mesmo pensamento na compreensão de nosso mundo, é ser honesto com o conhecimento.

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De vez em quando ao citar um livro, música, ou filme que não estão na “moda”, percebo o desinteresse constante e sem muitas justificativas, simplesmente por  aquilo não ser uma novidade. O pior é quando essa postura vira um preconceito cuja idéia do cult é invocada de forma  pejorativa.

A partir dai quem adquire ou possui determinados gostos, é freqüentemente classificado de alternativo, ora com certa razão por querer ser explicitamente diferente, porém na maior parte do tempo, isso não passa de uma provocação taxativa, vindo principalmente daqueles que não aceitam e não fazem a mínima questão de aderir certos costumes.

O gosto segundo Bordieu (sociólogo francês), só pode ser aprendido relacionadamente, dentro de um sistema de oposições e complementaridades entre estilos de vida e entre correspondentes posições sociais na estrutura de classes. Segundo o autor essa questão de gosto, mais do que em qualquer outra área ou qualquer determinação é negação: os gostos são, sem menor dúvida, acima de tudo, aversões, repugnância provocada por horror ou intolerância visceral do gosto dos outros. Ao contrário do apelo à tradição, no qual determinados grupos acabam simbolizando que o antigo é sempre melhor, o apelo ao novo sugere que a maioria das coisas, ou tudo que é mais recente acaba sendo maior de idade qualidade ou mais interessante.

Talvez, uma grande parcela de culpa ocorra em função dos bombardeios midiáticos das propagandas que invadem as telas, os jornais, a internet, as revistas e os outdoors. Esse anúncio freqüentemente vem acompanhado de uma frase convidativa: conheça os nossos novos produtos… Dessa forma a novidade é consumida vorazmente, em um apelo quase religioso ao consumismo.

Logo como um brinquedo de criança, o produto é largado em um canto e esquecido, pois um novo lançamento sempre está prestes a surgir. O consumismo ganha novas esferas, mas a “boa” e “velha” mentalidade continua a mesma.

Sendo assim, não dá pra justificar o consumo ou preferência por um produto ou idéia simplesmente porque ele é novo. É necessário haver razões sólidas que realmente demonstrem ou que sugira minimamente o porquê daquilo ter qualidade.

A defesa de uma idéia, ou a conclusão de um argumento ou ponto de vista não deve depender do fato de ser novo ou velho. O que vale é premissas aceitáveis e que suportem corretamente aquilo que está sendo oferecido.

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Muitos dizem que em breve o mundo vai crescer de uma maneira tão vertiginosa que faltara espaço e alimento. Talvez nesse ponto seja preciso controlar a natalidade populacional. Mas será que isso realmente é um fato social? O homem tem o direito de interferir no processo de criação?

O espectro da superpopulação volta à tona em 2008 em função da baixa passageira de estoque de alimentos da aceleração da degradação do ambiente. Dar uma olhada nos números não é nada confortante: 80 milhões de pessoas a mais no mundo por ano.

Porém, a humanidade não esperou o início do séc. XXI para se preocupar com a superpopulação. Platão e Aristóteles recomendavam aos Estados uma estrita regulamentação da natalidade, o que leva a questão da superpopulação mais como uma questão cultural do que de números. Desde o crescei-vos e multiplicai-vos bíblico vemos o confronto entre natalistas e simpatizantes do controle de natalidade.

Durante muito tempo não se dispôs de estatística – Como não era possível se apoiar em dados, o debate era filosófico, político e religioso. Mas ainda hoje, mesmo com a massa de dados disponíveis a uma forte tendência para um debate apaixonado – e por milhares de anos temeu-se um número muito baixo de nascimento.

Há quarenta mil anos atrás, com meio milhão de habitantes sobre a terra, essa ameaça parecia estar bastante distante. Porém os caçadores necessitavam de um espaço vital que assegurasse a disponibilidade de alimento através da caça. Portanto, a superpopulação é uma noção de geometria variável. Mesmo assim, o imaginário do que é uma superpopulação, continua sendo a de pessoas comprimidas em um ambiente diminuto como em uma lata de sardinhas.

Já na Grécia Antiga, o relevo impunha uma compartimentação: cada bacia se organizava como cidade independente, em dimensões reduzidas. Dessa forma, Platão define uma população ótima em função do espaço e dos recursos disponíveis, e descreve os métodos de organização e funcionamento social. Aristóteles segue o mesmo caminho: De todo modo um número muito grande não pode admitir a ordem. O pensamento democrático grego já coloca os termos do debate tal como encontramos no período contemporâneo: ele é eugenista, malthusiano e xenófobo.

Com extensão do mundo romano, muda-se a escala mais não a mentalidade. A política dos governos é mais natalista. Que constitui uma novidade e um fracasso, pois a natalidade romana continua baixa se comparada a de outros povos.

Com a chegada do cristianismo, a questão passava do mundo cívico e político para o registro religioso e moral. Um intenso debate se estabeleceu em torno dos méritos respectivos da virgindade. Porém o velho testamento não traz nenhuma ambigüidade: Crescei-vos e multiplicai-vos. Com isso na Idade Media houve um crescimento populacional significativo.

Assim seguiu o mundo ocidental até o início do séc. XIX. Ora o povo era visto como um flagelo, ora como uma riqueza. Todos desenvolveram suas explicações e formularam suas recomendações, embora a ferramenta estatística continuasse muito deficiente.

Com isso, a obra de Thomas Malthus é um divisor de águas na história demográficas. A população afirma o economista e pastor britânico, aumenta mais rápido que a produção de alimentos, o que inevitavelmente conduzirá à superpopulação e à fome em grande escala. Se deixarmos assim, as conseqüências serão brutais e dolorosas, com a natureza encarregando-se de eliminar o excedente humano; ou então realizamos o controle de natalidade. Segundo Malthus a rápida disseminação da miséria é um risco para toda a humanidade.

Contrapondo Malthus, Pierre-Prouhon respondeu que não havia problema de superpopulação. Se a miséria se propaga, é por causa do sistema ofensivo de propriedade que confere a alguns um poder injusto sobre os outros. Karl Marx pouco interessado na questão demográfica em si, considerava Malthus um inimigo da classe trabalhadora, referindo-se a ele como um insolente a serviço da classe dirigente, culpado do pecado contra a ciência e da difamação da raça humana.

Há somente um homem excedente na Terra: Malthus (Pierre-joseph Proudhon).

Esses debates prosseguiram até meados do século XX, quando a humanidade entra em um crescimento desenfreado: três bilhões de pessoas em 1950, 6 bilhões em 2000. Os demógrafos, filósofos, políticos e religiosos ficam dividido quanto à interpretação do fenômeno.

Mas na virada do século os antimalthusianos buscam tranqüilizar, apoiando-se nos fenômenos de transição demográfica em curso: as taxas de fecundidade estão desmoronando em todos os lugares, inclusive em países muito pobres. Assim a população se estabilizaria em torno dos nove bilhões em 2050 e 10 bilhões por volta de 20150. Dado que esse planeta garante a maioria dos demógrafos, seria capaz de alimentar ainda 10 bilhões de pessoas.

Mas é desejável atingir esse número? Afinal o empilhamento de 10 bilhões de pessoas, mesmo que fossem bem alimentadas, continua sendo um empilhamento de gente.

No início de 2012, espera-se a chegada do sétimo bilionésimo cidadão do mundo. Esse pequeno tem sete chances em dez de nascer em um país pobre, em uma família desfavorecida. Devemos enviar-lhe uma carta de boas-vindas ou uma carta de desculpas?

Resumo do artigo: Um planeta muito populoso, de George Minois (demógrafo) escrito para o Le Monde Diplomatique Brasil.

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Em alguma época meu coração se deliciava com a possibilidade de transformar o mundo num lugar melhor.
inferno-de-dante
Parece-me que as injustiças sociais são maiores aos olhos dos adolescentes engajados na luta do bem contra o mal.
Mais velhos parece-me que enxergamos a sociedade com outros olhos.
Talvez com os olhos dos que acreditam que a sociedade – principalmente a brasileira – não tem jeito mesmo.
É má, preconceituosa, racista, egoísta, hipócrita, cínica… filha-da-puta.
Adolescente, então, escrevi um poema de protesto sob a minha ótica de adolescente.
E arrisquei-me, sem conhecer nada de português, a criar palavras que pudessem explicar a minha revolta.
E fiz!
Aí vai o poema Poederno.
Que, naquela época, era a minha paixão.
Desfomeação, poederno, desfomeação
desfomeação antes que seja tarde, desfomeação!

Estamos na rua com nosso poederno
nosso espaço-crise
nossa subsistência
nossa passeética
falsamente entalhado em nossos sorrisos patéticos
porque andamos cronometricamente controlados na rua
feito máquinas
feito marionetes.

Andemos esquizofrenicamente atabalhoados
neuroticamente arrasados
democraticamente ludibriados
esfomeadamente modernizados.

Nossa dieta mental são mil jornais
mil revistas
pressionadamente mentirosos
esteticamente sistematizados nas normas da direção.
Nossos sonhos são previsões estatísticas
graficamente inventadas
matematicamente fabricadas
por computadores humanamente controlados.

Andamos pensando em nos matar
se nós nos matamos
o povo
esta sociedade falida de idéias próprias
aprende a morrer por um ideal secularmente sonhado
e nunca realizado:
a liberdade.

Andamos desgraçadamente esquecidos na rua
esta rua de várias cores
de várias línguas
vários credos
vários sonhos
esta rua nazistamente venerada
socialistamente ideológica
marxistamente utópica
capitalistamente arrasada
por padrões desavergonhadamente falsos
e ultrapassados
que estão graficamente demonstrados e derrotados
na luta do organizar.

Andamos com inflatite nos bolsos desavantajados
andamos com sequestrites políticas
assassinites patológicas
desorganizite governamental
andamos numa rua que é uma dúzia de ovos recém-botados.
Estamos com um caos estampado em nossos passos cansados
pela nossa perturbação massal.
Estamos emocionalmente perdidos nesta entidade destroçada
pelo pensamento tecnológico.

Andamos rastejando nesta rua salarialmente falsa
estruturalmente abalada
deficientemente retratada.
Estamos assistindo à masturbação geral-mental-covarde
de um monte de mentes impotentes
para tirar do corpo desta grande mulher o fogo ardente
que queima aceleradamente
o órgão vital desta vida imensa.

Andamos controlados por pressão remota
andamos russamente abalados
americanamente desacreditados
arabicadamente petrolados
subdesenvolvidamente acorrentados
mundialmente abandonados.

Nossos dólares acabaram-se:
não dão para o ônibus e o bife.
Estamos voltando a pé pra casa:
desgraçadamente esfomeados
revolucionariamente desejosos.

Nossas mulheres sentadas na cama
desgostosamente mal vestidas
fisicamente amareladas
balançam nossos filhos magros e adoentados
esquecidamente adormecidos
friamente desagasalhados
culturalmente semi-analfabetizados
e nos esperam
para mais uma discussão conjugalmente econômica.

Não temos dólares
nem petróleo
nem petrodólares.
Temos vida
somos gente.
Temos fome
frio
sede
anseios.
Temos vontade de viver como homem como mulher.
Temos o universo predestinadamente dividido
e doado
mas eternamente castigado pela força
de falsos deuses
falsos homens.

Andamos pensando em nos matar:
assim os deuses modernos aprendem a compreender
nosso poederno
nossa liberdética
nossa dialética
nossa fome
nosso frio
nossa sede
nossos anseios
pateticamente ludibriados
abandonados
arrasados e jogados nos cofres de aço
de um monte de fanfarrões
ignorantemente cultos
desajustadamente estúpidos
que são os deuses homens que comandam nossas ruas.

Desfomeação, poederno, desfomeação
desfomeação antes que seja tarde, desfomeação!
E pronto!
Quando eu fiz este poema parecia que eu já havia feito a minha parte, cumprido com a minha obrigação social.
Arroubos juvenis!
O buraco é muito mais embaixo.
O inferno na sociedade
E de gente bem intencionada o inferno está cheio.
Principalmente de poetas revolucionários.
De revolucionários poetas.
E de adolescentes sonhadores.

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Para Karl Marx, grande crítico do sistema capitalista, o trabalho não era algo a ser abolido, sendo um problema maior a exploração em si. Para o autor, a atividade do trabalho é uma condição da existência humana, independente de qual seja a fórmula da sociedade, sendo a mesma uma necessidade entre o homem e a natureza. Hannah Arendt também defende uma postura semelhante, dividindo a condição humana entre ação, labor e trabalho.

Porém, atualmente, no capitalismo o trabalho tem adquirido proporções esquizofrênicas, invadindo o âmbito do lazer e do consumo.

Horário de trabalho
O momento de folga para muitos, não representa necessariamente o de lazer. O ócio vai ficando para trás. Mesmo quando não se está no trabalho, os consumidores passam a maior parte do seu tempo em atividades domésticas.

Muitas vezes trabalhando de ‘graça’ para determinadas empresas, o consumidor reserva suas passagens, vai ao supermercado, enche seu carrinho, enfrenta enormes filas, instala seus próprios programas no computador ou conserta algum objeto danificado.

Mas essas funções são tidas como uma opção do trabalhador. É lógico que essas horas extras não são pagas diariamente, mas pelo menos se economiza o salário. O melhor de tudo é que os trabalhos nas horas vagas não tem perigo de levar ao desemprego A princípio tudo isso gera um mal-estar para o consumidor-trabalhador; mas logo suas tarefas passam a ser considerado um ato-heroico e de livre escolha.

Enquanto uma automação dos serviços prestados ao consumidor não se torna eficiente, resta a ele ser atendido por um serviço obsoleto, como é o caso de muitos telemarketings que após uma longa e tediosa espera o saúda com um “obrigado por sua preferência”.

Inevitavelmente, dentro desse sistema de panes, o consumidor se torna cada vez mais trabalhador, afastando-se das suas horas de descanso, sendo empurrado e obrigado a fazer diversas atividades por conta própria, adquirindo assim, o lazer de trabalhar.

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Estou achando tudo tão risível em torno dessa coisa do “kit anti-homofobia”. Não sei quem é mais patético: O MEC ou essa bancada religiosa e da família. É a educação autoritária do Emílio de Rousseau, que em sua proposta de uma educação civil literalmente cuida de endireitar e, com isso, preparar o indivíduo para o mundo humano-social, sendo utilizada como instrumento/aparelho ideológico do Estado – bem no sentido althusseriano – favorecendo ainda mais a invasão do mundo sistêmico no mundo da vida, no dizer de Habermas? E assim vamos formar cidadãos tolerantes (já vejo problemas nesse princípio) à diferença? Ê maravilha! Só posso rir de tamanha falastranice.

A diferença não precisa nem ser tolerada, nem ensinada, tampouco imposta. Antes respeitada como parte constituinte do corpo político. A diversidade é o que nos marca como modernos. Acredito ser válida a intenção de esclarecer e desconstruir mitos que foram gerados em torno da homossexualidade. Ou para melhor dizer, em torno da sexualidade, porque o sexo ainda é assunto demasiado “mistificado”, para ser gentil. Muito disso devido à religião, em especial a cristã entre nós ocidentais, na tentativa de incutir nas mentes e nos corações, para falar como Rousseau, seu ideário político para o mundo, onde a heteronormatividade se faz fundamental, haja vista a lógica da reprodução (lógica essa espinhosa de enfrentar para os homossexuais), identificando na monogamia à norma, a regra, a sanção, a “legítima” e, pior, natural – lembremos do criacionismo bíblico – maneira de ser para o ser humano.

Não vou aqui fazer um levantamento histórico nem análise sociológica, filosófica ou política dos problemas legados a nós, modernos, pela religião cristã, o que seria de grande valia e igualmente enriquecedor. Mas para tanto não possuo mobília suficiente, muito menos sou letrado no tema. Minha intenção é só, e somente só, indicar como, talvez, está sendo propagado e reproduzido um equívoco, uma confusão, no meu entender, quanto às propostas e ações do governo, na figura do MEC e, em última instância, na figura da presidenta Dilma Rousseff, bem como na interpretação que muitos estão tendo no que se refere a não aprovação da presidenta em relação ao famigerado kit.

Que a homofobia deva ser criminalizada sou o primeiro a dar apoio. Que qualquer tipo de discriminação racial, sexual e de qual for à motivação também seja devidamente punida, de igual modo sou favorável. Antes de qualquer coisa, se eu poderia dizer que levanto alguma bandeira – coisa que não faço -, eu diria levantar a bandeira da diversidade (sexual, religiosa, política, cultural, artística, científica, filosófica…). Mas o caso da suspensão desse kit não me parece merecer a pecha de uma atitude repressora ou acato a pressão da bancada religiosa (evangélicos e católicos – e, diga-se de passagem, com figuras medonhas como a do Pr. Silas Malafaia e a do Deputado Federal Anthony Garotinho) e da bancada da família – que sim, em muitos aspectos são bancadas retrógradas. A decisão da presidenta em suspender o tal kit me soa muito mais como uma atitude prudente, de bom senso e expressão de fortes compromissos democráticos.

O tal material versa sobre costumes e, para tanto, segundo o argumento da presidenta, carece de maior apreciação e discussão ampla na sociedade. Para além de dizer que a sociedade brasileira é machista, retrógrada e homofóbica, colocando num mesmo bolo (que supõe homogeneidade, o que não vejo nas sociedades modernas ocidentais), como se esta fosse puramente uníssona é, para dizer o mínimo, redutor e não nos faz avançar uma vírgula em nossa Democracia. Não estou fechando os olhos quanto à maioria conservadora e, em muitos casos, reacionária, existente em nossa sociedade – o que pode significar, na denúncia de Tocqueville, uma tirania da maioria. Contudo tal redução é tão ou mais nefasta quanto às manifestações conservadoras e autoritárias da estúpida bancada religiosa e da família. Ser composta – nossa sociedade – por uma maioria machista, não nos autoriza em nada exigir do governo posturas tão ou mais autoritárias quanto à desta maioria.

Veja, não sou ingênuo em supor que o puro diálogo entre os interesses diversos existentes no interior da sociedade, sem uma ação do poder público efetiva, irá nos trazer um amanhecer mais justo ou, melhor dizendo, menos excludente e violento em relação a tantas minorias – não apenas as minorias sexuais. Porém, no meu entender, uma profunda mudança de costumes, que passa necessariamente pela transformação da mentalidade de uma época (por isso minha ênfase em nos dizer modernos, por sermos fruto de um processo denso e intenso de radical transformação das mentalidades, nos permitindo, inclusive, vivenciar o atual momento de ampla e democrática discussão sobre o tema em questão, dentre tantos outros), encontra sim, na educação um grande veículo propulsor dessa transformação. Contudo – e me parece que foi essa a ponderação da presidenta – o cuidado está todo na forma, na maneira, no como ser realizado e conduzido, e antes, iniciado esse processo de esclarecimento.

Felicito sim a atitude da presidenta, que mais uma vez, demonstrou preparo, firmeza, sensibilidade, prudência e bom senso na decisão. Não caindo, portanto, – e agora retomo um outro Rousseau – no horripilante perigo de uma prática autoritária que, no ensinamento caro à Rousseau, do qual somos herdeiros, faz assentar na figura do Grande Legislador (e só nele encontra a sua expressão única e imediata verdadeira), o princípio da vontade geral. Antes, com todo o cuidado e prudência digo, me parece que a presidenta optou pelo outro Rousseau, aquele que nos fez democráticos, porque compassivos diante dos frágeis sofrendo das mais repugnantes desigualdades.

Tomemos cuidado nas rápidas, fáceis e sedutoras acusações generalizantes quando se trata de política e de temas, como no caso, tão delicados e bem mais espinhosos, por poderem desencadear conseqüências devastadoras para nós mesmos. Assim compreendo e vejo a postura da presidenta e a parabenizo pela bela demonstração de respeito à Democracia – esta que nos é tão cara e constantemente na vida política brasileira solapada -, antes que a qualquer grupo.

E agora, como penso ter me feito claro, corrijo meu inicial estado de espírito jocoso expresso, dando bem a medida do contrário.

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