Ela estava lá sentada ao pé de uma árvore. Como de costume, nos outonos, gostava de passar algum tempo na velha praça de sua infância. Não se tratava apenas de recordar os tempos de criança. As tardes de brincadeiras com seus pais no parque, as aventuras que a companhia de seus amigos representava. Elise estava ali porque era ali que se encontrava com ela. Naquele cantinho que se olhava intimamente. A mesma praça cuja árvore acompanhara seu crescimento. A familiaridade daquele lugar lhe acolhia. Ali ela se deixava ir embalada pelas músicas que tanto gostava.

- Ela estava lá sentada ao pé de uma árvore. A familiaridade daquele lugar lhe acolhia. Só queria ficar ali quieta e sozinha.
Enquanto escutava suas músicas, num desses aparelhos modernos, acompanhada de sua coca sempre muito gelada – exatamente como gostava – e seu sanduíche de atum, não estava atenta ao que lhe acontecia ao redor. Na verdade também não estava nada interessada, só queria ficar ali quieta e sozinha. Estava a pensar sobre esse momento de seus vinte e poucos anos. Tanto já para contar. Muito sentia que precisava viver, e como queria saber, conhecer o que a vida poderia lhe oferecer. E nesse frenesi de pensamentos, não conseguia coordenar essa tamanha paixão que sentia pulsar pela vida. Uma paixão que lhe provocava, proporcionalmente as suas vontades de viver, uma angústia. Não se tratava de angústia do tipo que destrói. Era aquele tipo de angústia por não se caber. Sua ciência não alcançava a grandeza de tudo que seu olhar lhe mostrava.
Era devoradora de livros. Os lia com uma fome insaciável. Assistir a filmes e programas, para ela, estava para além de um mero entretenimento. Com eles ela sentia aprender tanto quanto com os livros. Era atraída por tudo que apresentasse ideias. Muito embora bastante crítica, ideia pela ideia não fazia muito a sua cabeça, era do tipo criteriosa, mas antes curiosa. Ela não era, de fato, desses tipos pedantes que desprezam as novas tecnologias e julgavam muito do que se fazia para distração como menor. Elise inclusive julgava tais coisas necessárias. Na verdade desprezava esses que, por se julgarem sapientes demais – sapiência advinda dos livros em tempos outros, na maioria das vezes -, desacreditam em novas formas de saberes. Não. Ela sabia aproveitar e absorver de tudo que lhe chamasse atenção. Era mesmo sedenta em vivenciar tudo quanto pudesse. Tudo quanto seu corpo lhe pedia. Tudo aquilo que fazia seus olhos saltarem de tanta beleza.
Quando dessas tardes desfrutava, tardes em sua única companhia, sua intenção passava pela necessidade de esvaziar-se o quanto pudesse. Aparar arestas, poldar para melhor crescer. Ela queria se polir. As partes empoeiradas precisavam ser revisitadas e cuidadas. Reorganizar tantos espaços preenchidos pelos objetos e coisas erradas. Espaços inutilizados e esquecidos que poderiam ser importantes. Lugares abandonados e temidos, em geral de acesso difícil por tão bem guardados estarem. Acender a luz, rememorar lembranças. Importante não esquecer algumas. Acompanhar-se a si caminhando pelas ruas de sua criação. Pelas ruas de sua existência em construção e mutação. Algumas dessas ruas imutáveis, verdade, afinal na história estão indelevelmente registradas. Estava ali para dedicar tempos e reflexões para ela, de externo nada lhe interessava. Momento de egocentrismo. Como num samba que apreciava, Elise dizia para o mundo com calma e serenidade, com a delicadeza e gentileza de quem quer voltar: “Deixe-me ir preciso andar, vou por aí a procurar…Eu quero nascer, quero viver… Se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar quando eu me encontrar”.
Ao som de tantas canções das mais diversas, ela estava lá sentada. Ocupando um lugar qualquer para muitos, apenas um pequeno espaço de uma praça pública. Mas para ela não. Para ela era ali que melhor se encaixava quando sua companhia era pedida, querida, necessária. Era debaixo daquela árvore, testemunha de seu crescimento, sempre nos outonos, quando a árvore estava despida, que ela também se despia. Não sentia como sendo seu lugar no mundo, afinal tratava-se de lugar público, no mais, era uma jovem desenvolta e, aparentemente desprendida, que onde estivesse sabia encontrar um espaço que lhe agradasse ou fazê-lo agradável. Ela sentia que ali, naquela praça e ao pé daquela árvore, o tempo não contava as horas de seu dia-a-dia e, por isso, era um pouco seu aquele lugar. Ali ela estava, ainda que por instantes, sujeita apenas a seus julgamentos. Como sendo um ponto de equilíbrio, onde encontrava e/ou buscava harmonia. Que não se confunda esse momento com paz. Ela até poderia se fazer presente, contudo muitas batalhas eram travadas. Ela sabia que a sua companhia não era das mais fáceis.
A estação não poderia ser mais adequada. Era outono, e não à toa ela escolhera esse momento para este encontro. Desde muito pequena, o outono lhe provocava fascínio. E como se com ela se desfizesse nas folhas caídas, Elise estava ali pronta para se despedir das folhas que por um período regou. Algumas com mais esmero, outras nem tanto assim. Mas não deixou de cuidar para o dia seu florescimento que, naquela estação, momento de sua vida, iria morrer. Ali, durante anos, era o momento onde se orgulhava ou se envergonhava. Era nas folhas caídas, secas e já sem vida, sendo varridas pelos ventos, que ela se via indo. Era no outono que melhor poderia se ver. Cada folha lhe dizia o melhor e o pior de si. Com sorrisos e lágrimas, pegava as folhas e recebia os diversos reflexos de si. Tantas e tantas folhas, inúmeras sendo levadas para longe antes que ela pudesse ver. Assim sentia muito do que já lhe acontecera. Momentos que lhe escaparam. Seu coração até se comprimia, num lamento conformado pelo que fora tão efêmero. Muitas das vezes ficava a vaga lembrança desses momentos. Mas não se entristecia. A tudo querer conter e compreender era demasiado pesado, e Elise queria continuar.
Tantos interesses lhe seduziam. Não conseguia coordená-los sempre. Entre os dois pontos que unem uma reta, Elise contava nos dedos de uma só mão os momentos que conseguira estar no centro. E as folhas lhe diziam do seu crescimento. Irônico, pensava, se ver tão semelhante aquela árvore. À primeira impressão ao olhar para as árvores no outono, é a de que se trata de uma estação cruel. Árvores vazias sem fruto algum. Despida daquilo que lhe ornava – as folhas. Ressequida. Aquilo que se poderia dizer ser sua pele, não tinha brilho, não expressava vigor. Era exatamente assim que Elise se via. Logo que se apercebera do hábito e gosto pela árvore e, à medida que fora construindo essa relação com aquela árvore e suas fases, ainda por volta dos seus treze anos, não foi de imediata admiração e respeito. Era espanto e estranheza o que sentia. Mas ali, ocasião de seus vinte e poucos – ainda no início destes -, ela se enchia de admiração e alegria. Compreendia melhor essa semelhança e não mais lhe causava espanto quando nos outonos a via seca e despida. A quietude que Elise sentia ao pé daquela árvore, que nem sombra poderia lhe oferecer, ao pegar as folhas secas, parecendo folhear páginas de algum livro, ao som das músicas de seu gosto, faziam-na enxergar que ali não era mais um lugar, muito menos seu. Naquele momento de quietude, Elise sempre encontrava o motivo para àqueles encontros de outono.
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