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Archive for the ‘Contos/Crônicas’ Category

Me pego demasiadamente introspectivo. Nenhuma clareza de momento quanto ao querer, quanto ao fazer, quanto até mesmo ao sentir. Sinto estar tomado por um estado de espírito demoníaco. Talvez o demônio seja o mais sensível dos seres. Talvez por saber da falta de sentido disso tudo aqui. Quero dizer, a vida.

Imbuído nesse emaranhado de sensações, envolto numa teia de significados e, estranhando-os, sentindo-me atônito na recusa de uma postura disciplinada, é na figura do demônio que me identifico. Este ser relegado, condenado às profundezas por atender aos instintos que lhes foram dados pelo Criador, como nos conta a história. Oras, que mal teria ele feito então, se meu raciocínio é correto? Que pecado cometeu se em sua constituição estava impresso a vaidade? Por que cargas d’água um ser perfeito, pleno em bondade, misericórdia, amor, justiça e verdade, criaria um ser capaz de querer usurpar seu trono e dominar em seu lugar, saindo assim da condição de dominado, subserviente? E por que o ser de sua criação seria culpado e acusado de nele estar todo o mal possível? Oras, não fora ele gerado pelas mãos e querer do Criador perfeito?

É com o diabo que me sinto próximo agora. Me achegando à ele vejo refletida as minhas características, as quais resumo na palavra vaidade. Nela está contido o que eu diria ser a essência partilhada entre eu e o diabo. Antipático a idéia de essência, por entender sermos muito mais construção do que natureza/essência, contudo tendente a enxergar tal semelhança entre eu e ele. Tal aproximação até me faz compreender a ira do Criador para com os humanos e a dos próprios humanos para com seus pares. Talvez eu esteja concordando com Sartre, quando disse que o inferno são os outros. Não estou certo disso. Mas estou certo que concordo em muito com o homem que matou Deus – Nieztsche – quando afirmou que ele mesmo não era um homem, mas um campo de batalhas.

Não sei… Não sei… Apenas sinto-me unido ao diabo agora. Sinto com ele partilhar as agruras dessa existência caótica, ausente de sentido claro. Sinto com ele vagar pelos vales e montes, em seus momentos de glória e de lama. Sinto nele compreender-me em pequenez, em feiúra, em bagunça, em nada, em humanidade.

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Amor x Ódio

Aposto no ódio, cuspo no amor.
amor e odio
O amor, tá na cara, é doente; o ódio, saudável e promissor.
É questão de lógica: o gigante x o anão.
O amor se esquiva; sobrevive aos trancos&barrancos nos folhetins novelescos.
O ódio é real, está nas ruas; na voz que grita o assalto, na voz de quem pede a esmola, nos olhos de quem exige amor.
O amor se isola e se imola nas conversas dos que já odeiam e pensam amar.
O ódio é correto, cheio de moral.
Não se esconde de nada, ao contrário está sempre disposto a mostrar sua cara, a dar o melhor de si.
O amor se desuniversaliza.
O ódio atravessa as fronteiras, das terras e dos corações.
O amor é lerdo, negocia-se por muito tempo o seu preço.
O ódio é lépido, é de graça, não necessita negociação.
Aposto tudo o que tenho no ódio, até o meu pseudoamor, as minhas esperanças.
o amor não tem futuro.
O ódio é o nosso objetivo.
E não demora o enterro do último ser que amou.
E eu quero estar preparado, com o meu ódio em dia.
Pronto para enfrentar os tempos que virão.
Que não serão bonitos de ver, de viver… conviver.
E muito menos de sentir…
O futuro chumbo negro da alma.

E do coração

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Um dia datado. Dezessete de julho do ano de dois mil e sete. Coincidentemente, ou não, um número curioso. Talvez quisesse dizer algo. Talvez não, apenas uma coincidência. E nesse dia descubro-me tomado dessa paixão. Uma paixão agora com forma e corpo. Uma paixão ao meu lado e comigo. Uma paixão que me deixa trêmulo. Uma paixão que me assusta. Uma paixão que não consigo resistir. Uma paixão! E é dela que gostaria, em linhas breves, contar-lhes seu impacto em mim.

Meio que sem querer, ou não propriamente tão sem querer, visto que de mim não me permitia admitir a tua presença assim, tão imediata em mim, eu lá estava com os meus pensamentos emaranhados no teu toque, na tua respiração, no teu beijo, e assim por dizer, em você. E eu que não costumava ser nada dado a me entregar a meus sentimentos, vi-me por eles impelidos a alimentá-los de ti.

Com todas as minhas forças existentes, quereria colocá-los a meu bel-prazer, tendo-os apenas comigo. Mas isso me parecia solução de um covarde que se engana com suas próprias verdades. O não querer já parecia não fazer parte de mim, sendo apenas externo por condicionantes vindos de lugares diversos. A sentimentalidade em sua necessidade havia sido comprimida a ponto de me escapar a sua beleza, fazendo-me enxergá-lo, tu, minha paixão, como anomia e, por ocasião, também a querer-te por perto.

Os tempos em que de você apenas uma idéia fazia, foram proféticos. Era como se tudo estivesse em desordem onde se poderia estar, e eu, apenas eu, sendo para mim e por mim o grande criador, diretor, roteirista, àquele que conduzia a sucessão dos acontecimentos previamente, logo sem surpresas. Mas parece que a força do meu desejo, a intensidade que eu colocava na nossa “história” particular, por só minha ser, o sentimento e a ilusão característicos de quem fica apenas no sonho, idealizando, lhe trouxeram pura e simplesmente sem me avisar que a realidade não mais estaria sendo só por mim pintada, seria, portanto, uma construção que envolveria conflito, o que a mim sempre assustou.

Recolhi-me de mim buscando em ti alguma, ou quem sabe, outras respostas. Nem estas, tão pouco aquelas, obtive desde então. Ficou uma confirmação: aquilo que deveria ser extinto – não sem muito penar – foi reavido e vividamente trazido por ti. A raridade da vida te fez ser o viver que a mim eu tanto disse que viveria, sem noção, dimensão, mas talvez com razão, coesão. Isso duma coexistência inerente e livre, independente de mim, diria. E tu, em momentos tão distantes te configuraste de forma querida, pedida. Ao passo que também era temido e acentuadamente não tão querido.

A voz balbuciada da tua boca, a linguagem estabelecida por tuas mãos e o sentimento, meu reflexo, do teu olhar, ao passo que a razão proposta em tuas falas, os valores ditos em teus gestos, as verdades e idéias impressas em teus pensamentos, estavam num território pré-existente de mim. Eram propulsores e, paradoxalmente, inibidores do meu sentir, agir, querer, fazer. Como se num jogo de pesos e contrapesos, eu já não me encontrava no controle de absolutamente nada. E em tal território minha imaginação me levava presente e ausente. E como se uma vez estando nesse território, e outra não, conjecturava saber da beleza e agruras por mim e por ti a serem vividas.

Não havia mais o que racionalizar sobre ti em minha vida. Isso eu unicamente sabia e, por fim, aceitei. Já te fazias parte dela como eu nunca pensei ser provável. Mesmo no meu muito querer, simplesmente evitava. E como eu temi. Como temi!… Também não poderia desprezar o que até então havia me feito criador, diretor e roteirista de um enredo existente lá, no aparente distante mundo das idéias, e só. Mas tu, meu sentimento e querer “impossíveis”, minha forma de viver abstrata, foste capaz de insurgir para na minha vida ser constituinte de uma história, uma realidade, uma verdade. E a isto, perante tu, não há mais o que remediar.

E nesse dia eu disse para mim: “De ti, apenas vivo. Contigo, simplesmente quero. Para ti, de fato sou. Por ti, nada sei de mim”.

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Parar, sentar, pegar um papel, uma caneta e pôr-se a pensar.

escrevendo-no-papel

Pensar no que escrever naquela folha de papel em branco.

É um bom exercício, uma boa maneira de você repensar o mundo, a vida… a sua vida.

À procura do assunto você viaja por todos os espaços.

Você pensa em emprego, desemprego, salário, filhos, casa própria, poluição, corrupção, guerras, fome, doenças, esportes, imagens, lugares, tragédias, religião, aquecimento global, violência, esperança, alegria, tristeza, cinema, literatura, teatro, universidade, carreira, preconceito, trânsito, amigos, amor, sexo… etc etc etc.

E você escreve.

E fica conhecendo mais você, sua posição sobre os assuntos relevantes e sobre os irrelevantes.

Se você é de esquerda, direita, conservador, preconceituoso, alegre, triste, solto, amarrado…

E não importa se o texto fica bom ou ruim!

Chato, legal.

Aproveitável ou não.

Escrever é legal.

É também entretenimento.

E você convive mais com você.

Experimente!

É de graça e não dói!

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– Pensei em você, hoje!

Pensando na vida…

– Pensei em como vive, ama, dorme, se diverte!

– Em como você trabalha!

– Em como você sobrevive, se alimenta, sorri… existe!

– Pensei em você como gente, pessoa… humano!

– Pensei nos seus olhos vivos, nos seus desejos secretos, na sua alma, no seu sorriso bonito.

– Pensei na sua mulher querida, nos seus filhos saudáveis, no seu pai que é tão bacana, na sua mãe tão amada, nos seus irmãos tão amigos, nos seus amigos tão irmãos, na sua presença no mundo, no seu dia-a-dia.

– Pensei no lugar em que mora, no lugar em que trabalha, onde seus filhos estudam, no restaurante onde come, na igreja onde agradece, na comunidade em que vive.

– Pensei nas suas viagens, na sua cobertura fantástica, no seu carro de mil cavalos, no seu celular da hora, no seu relógio de ouro, nas suas roupas de marca.

– Pensei no seu som importado, no seu computador de mil gigas, na sua poupança gorda, na sua digital incrível, no seu home theater enorme, no seu dvd prateado, na sua tv de plasma, nos seus controles remotos.

– Pensei na sua existência árdua, no tempo que lhe falta para curtir tanta coisa, para ser feliz com isso.

– Pensei em como foi difícil juntar tanta coisa cara, pagar tanta coisa inútil, sobreviver à feroz ansiedade de comprar cada coisa nova que o mundo oferece aos tolos.

– Pensei no seu coração, na sua hipertensão que avança, no seu stress doloroso que lhe mata pouco a pouco.

– Pensei naquelas suas noites em que a cama é feita de espinhos.

– Pensei em como você, às vezes, fica tão deprimido, em como você, às vezes, está alegre e fica triste.

– Pensei em você, hoje!, e também pensei em mim.

– Também acontece comigo. Eu também acho que sou esperto, importante, que tenho tudo na vida.

– E daí que o emprego me mata, que as obrigações me infernizam, e daí que sustento o monstro pra ele ficar de pé!

– E daí que chupam meu sangue, que eu não tenho tempo pra nada, e daí que a empresa consome tudo o que tenho na vida!

– E daí que os meus neurônios estão se transformando em chips!

– E daí que eu sou um idiota e não enxergo isto!

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A História:

– Não nego!

– Estou sem assunto nesta segunda-feira.

– Acho que já falei tudo o que tinha que falar.

– Tá todo mundo entediado!

– Eu também!

– O diabo é que amanheceu um dia lindo em João Pessoa.

– Aquele mar!…

– Então é inevitável: eu começo a pensar nos pobres coitados que, neste momento, estão dentro do carro, do ônibus, do metrô… indo pra forca.

– Eu não consigo me controlar!

– Fico tomado de humana compaixão e sempre procuro lembrá-los que hoje é segunda-feira.

– E das brabas!

– Mas, em contrapartida, é líquido e certo: a Dilma ama todos vocês.

– De paixão!

– Uma ótima segunda-feira, e que Deus os proteja do trampo infernal.

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Ela estava lá sentada ao pé de uma árvore. Como de costume, nos outonos, gostava de passar algum tempo na velha praça de sua infância. Não se tratava apenas de recordar os tempos de criança. As tardes de brincadeiras com seus pais no parque, as aventuras que a companhia de seus amigos representava. Elise estava ali porque era ali que se encontrava com ela. Naquele cantinho que se olhava intimamente. A mesma praça cuja árvore acompanhara seu crescimento. A familiaridade daquele lugar lhe acolhia. Ali ela se deixava ir embalada pelas músicas que tanto gostava.

Ela estava lá sentada ao pé de uma árvore. A familiaridade daquele lugar lhe acolhia. Só queria ficar ali quieta e sozinha.

Enquanto escutava suas músicas, num desses aparelhos modernos, acompanhada de sua coca sempre muito gelada – exatamente como gostava – e seu sanduíche de atum, não estava atenta ao que lhe acontecia ao redor. Na verdade também não estava nada interessada, só queria ficar ali quieta e sozinha. Estava a pensar sobre esse momento de seus vinte e poucos anos. Tanto já para contar. Muito sentia que precisava viver, e como queria saber, conhecer o que a vida poderia lhe oferecer. E nesse frenesi de pensamentos, não conseguia coordenar essa tamanha paixão que sentia pulsar pela vida. Uma paixão que lhe provocava, proporcionalmente as suas vontades de viver, uma angústia. Não se tratava de angústia do tipo que destrói. Era aquele tipo de angústia por não se caber. Sua ciência não alcançava a grandeza de tudo que seu olhar lhe mostrava.

Era devoradora de livros. Os lia com uma fome insaciável. Assistir a filmes e programas, para ela, estava para além de um mero entretenimento. Com eles ela sentia aprender tanto quanto com os livros. Era atraída por tudo que apresentasse ideias. Muito embora bastante crítica, ideia pela ideia não fazia muito a sua cabeça, era do tipo criteriosa, mas antes curiosa. Ela não era, de fato, desses tipos pedantes que desprezam as novas tecnologias e julgavam muito do que se fazia para distração como menor. Elise inclusive julgava tais coisas necessárias. Na verdade desprezava esses que, por se julgarem sapientes demais – sapiência advinda dos livros em tempos outros, na maioria das vezes -, desacreditam em novas formas de saberes. Não. Ela sabia aproveitar e absorver de tudo que lhe chamasse atenção. Era mesmo sedenta em vivenciar tudo quanto pudesse. Tudo quanto seu corpo lhe pedia. Tudo aquilo que fazia seus olhos saltarem de tanta beleza.

Quando dessas tardes desfrutava, tardes em sua única companhia, sua intenção passava pela necessidade de esvaziar-se o quanto pudesse. Aparar arestas, poldar para melhor crescer. Ela queria se polir. As partes empoeiradas precisavam ser revisitadas e cuidadas. Reorganizar tantos espaços preenchidos pelos objetos e coisas erradas. Espaços inutilizados e esquecidos que poderiam ser importantes. Lugares abandonados e temidos, em geral de acesso difícil por tão bem guardados estarem. Acender a luz, rememorar lembranças. Importante não esquecer algumas. Acompanhar-se a si caminhando pelas ruas de sua criação. Pelas ruas de sua existência em construção e mutação. Algumas dessas ruas imutáveis, verdade, afinal na história estão indelevelmente registradas. Estava ali para dedicar tempos e reflexões para ela, de externo nada lhe interessava. Momento de egocentrismo. Como num samba que apreciava, Elise dizia para o mundo com calma e serenidade, com a delicadeza e gentileza de quem quer voltar: “Deixe-me ir preciso andar, vou por aí a procurar…Eu quero nascer, quero viver… Se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar quando eu me encontrar”.

Ao som de tantas canções das mais diversas, ela estava lá sentada. Ocupando um lugar qualquer para muitos, apenas um pequeno espaço de uma praça pública. Mas para ela não. Para ela era ali que melhor se encaixava quando sua companhia era pedida, querida, necessária. Era debaixo daquela árvore, testemunha de seu crescimento, sempre nos outonos, quando a árvore estava despida, que ela também se despia. Não sentia como sendo seu lugar no mundo, afinal tratava-se de lugar público, no mais, era uma jovem desenvolta e, aparentemente desprendida, que onde estivesse sabia encontrar um espaço que lhe agradasse ou fazê-lo agradável. Ela sentia que ali, naquela praça e ao pé daquela árvore, o tempo não contava as horas de seu dia-a-dia e, por isso, era um pouco seu aquele lugar. Ali ela estava, ainda que por instantes, sujeita apenas a seus julgamentos. Como sendo um ponto de equilíbrio, onde encontrava e/ou buscava harmonia. Que não se confunda esse momento com paz. Ela até poderia se fazer presente, contudo muitas batalhas eram travadas. Ela sabia que a sua companhia não era das mais fáceis.

A estação não poderia ser mais adequada. Era outono, e não à toa ela escolhera esse momento para este encontro. Desde muito pequena, o outono lhe provocava fascínio. E como se com ela se desfizesse nas folhas caídas, Elise estava ali pronta para se despedir das folhas que por um período regou. Algumas com mais esmero, outras nem tanto assim. Mas não deixou de cuidar para o dia seu florescimento que, naquela estação, momento de sua vida, iria morrer. Ali, durante anos, era o momento onde se orgulhava ou se envergonhava. Era nas folhas caídas, secas e já sem vida, sendo varridas pelos ventos, que ela se via indo. Era no outono que melhor poderia se ver. Cada folha lhe dizia o melhor e o pior de si. Com sorrisos e lágrimas, pegava as folhas e recebia os diversos reflexos de si. Tantas e tantas folhas, inúmeras sendo levadas para longe antes que ela pudesse ver. Assim sentia muito do que já lhe acontecera. Momentos que lhe escaparam. Seu coração até se comprimia, num lamento conformado pelo que fora tão efêmero. Muitas das vezes ficava a vaga lembrança desses momentos. Mas não se entristecia. A tudo querer conter e compreender era demasiado pesado, e Elise queria continuar.

Tantos interesses lhe seduziam. Não conseguia coordená-los sempre. Entre os dois pontos que unem uma reta, Elise contava nos dedos de uma só mão os momentos que conseguira estar no centro. E as folhas lhe diziam do seu crescimento. Irônico, pensava, se ver tão semelhante aquela árvore. À primeira impressão ao olhar para as árvores no outono, é a de que se trata de uma estação cruel. Árvores vazias sem fruto algum. Despida daquilo que lhe ornava – as folhas. Ressequida. Aquilo que se poderia dizer ser sua pele, não tinha brilho, não expressava vigor. Era exatamente assim que Elise se via. Logo que se apercebera do hábito e gosto pela árvore e, à medida que fora construindo essa relação com aquela árvore e suas fases, ainda por volta dos seus treze anos, não foi de imediata admiração e respeito. Era espanto e estranheza o que sentia. Mas ali, ocasião de seus vinte e poucos – ainda no início destes -, ela se enchia de admiração e alegria. Compreendia melhor essa semelhança e não mais lhe causava espanto quando nos outonos a via seca e despida. A quietude que Elise sentia ao pé daquela árvore, que nem sombra poderia lhe oferecer, ao pegar as folhas secas, parecendo folhear páginas de algum livro, ao som das músicas de seu gosto, faziam-na enxergar que ali não era mais um lugar, muito menos seu. Naquele momento de quietude, Elise sempre encontrava o motivo para àqueles encontros de outono.

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