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Archive for the ‘Contos/Crônicas’ Category

O amor não tem fronteiras

10 segundos foi o tempo que durou aquele beijo.
Míseros 10 segundos!
E bastou!
O tesão, a paixão, o amor, a loucura subiram pelas pernas, foram até o cérebro, se organizaram da maneira mais doida do mundo e desceram pro coração de Leomário.
Lá se fixaram.
E pronto!
Um doido nasceu para o mundo.
Quirinha se afastou do beijo.
Não era bem o que queria/pensava.
Achou tudo um grande engano, se desculpou, pegou a bolsa, se despediu e ia sair.
Leomário foi até a porta, girou a chave, tirou da fechadura e guardou no bolso.
Quirinha questionou.
Leomário olhou apaixonadíssimo para ela.
Ela tentou chegar até a porta, ele barrou.
Ela questionou de novo.
Ele, sem mais nem menos:
Mulher minha não faz o que quer!
Susto, desespero… conversa.
Nada!
Irredutível!
Pra cima, outro beijo.
Não! Não! E não!
Encostada na porta:
Sai!
Não!
O corpo no corpo!
A luta.
Tentativa de sair.
Nada!
A mão no pescoço!
A falta de ar.
Um grunhido… e pronto!
O amor não tem fronteiras.
Tanto nos aproxima de Deus, como pode matar.
Ou pode convidar o diabo para o beijo apaixonado.
Ou para a dança ao luar.
Depende do caso!

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Sempre a mesma indagação: O que era necessário? Querer, ele queria muitas coisas. Fosse enumerar a vastidão de seus desejos se perderia. Massacrante era discernir o necessário. Sentia uma distância entre o viver, o sobreviver e o necessário para uma vida. A questão da sobrevivência não se colocava como incômodo. Tal era de um vício inescapável que, para tal, providenciava. Incomodava-lhe saber o necessário para a sua vida. O que seria indispensável para o seu existir e para disso saber o que fazer desse existir.

Na altura de seus dezessete anos, momento de próxima a conclusão dos estudos fundamentais e às vésperas de decidir o que definiria o curso de sua vida daí em diante, Joaquim já se inquietara com essa temática. Estava sempre refletindo sobre vocação, paixão, vontade, aptidão, dom e, mais importante, o que fazer com tais. Sentia uma necessidade em não apenas viver por estar vivo. Queria da vida grandes realizações. Realizar não só para ele. Deixar feito por e para muitos. Mas o quê? Isto ele ainda não sabia.

Andava pelas ruas como se a procura do motivo, do que o faria despertar desse sono inerte, contudo inquieto, do que por fim lhe faria fazer. Fazer o quê afinal? Certo estava de uma coisa: teria que ser mais, muito mais do que vinha fazendo. O que seria então necessário para esse despertar, para essa descoberta? Sabedoria ele queria. Às vezes achava que ela seria necessária, indispensável para descobrir o que tanto o angustiava. Outras tantas vezes frustrava-se, pois seu imediatismo o cegava, o enchia de descrença lhe dizendo estar apenas a desperdiçar o tempo.

Dezoito. Era esse o número que media a sua existência. Existência do quê? Acrescentava-se mais um número que se entulhava aos anteriores. A soma do tempo nem sempre fora algo positivo para ele. Tentava relativizar o tempo, as experiências, distinguir o que fora aproveitável e se ele de fato soube aproveitar. Era permanente essa necessidade de acumular o que parecesse importante para utilizar nalguma coisa de real valor. Melhor seria dizer notável valor. Sua inquietude era tamanha que por muito lhe escapava a razoabilidade. Ânsia de chegar logo. Afã de realizações notáveis. Por fim ficava a sensação de estar sendo possuído por vaidades. Ignóbeis vaidades.

O que ele estava construindo? O que ele queria construir? Por que queria construir? E, a mais cruel: O que era necessário para construir? Eram interrogações que o enlouqueciam. Em momentos de calmaria, ele sabia que queria ser sábio. Um caminho para alcançar a sapiência estaria nos livros. Para ele, nos livros residiam respostas. Tolice. Nos livros residiam muito mais perguntas que respostas. Mas não sentia frustração. Começara a preferir as perguntas. Para quê ter respostas para tudo? Quem as julgasse ter grande mentiroso seria. Contudo essa vontade de muito saber. De saber para discernir. Separar bem.

A vida. Essa já o havia ensinado coisas diversas. E o que de fato Joaquim aprendera agora na entrada de seus vinte anos? Comer é necessário; vestir-se uma regra dita na lei; mães seres superiores; observar bem o movimento dos carros ao atravessar uma avenida; que a dor vem de muitos lugares e formas; que a injustiça simplesmente existe; boas ou más, as pessoas são apenas um amontoado de informações a que foram cercadas; que a paixão consegue de bela se fazer num monstro feio e cruel; que seu pai é seu pai e não se confunde com o de mais ninguém, ao contrário das mães, ele pode ser deus ou diabo, ou ambos; que pode ser perigoso amar; olhar o mar é tão bom quanto nele se banhar; que solidão é coisa ambígua; que a verdade não é tão benquista assim; que a música sabe todas as línguas; que os sorrisos fáceis demais são traiçoeiros; que ninguém está preparado para a morte…

Era mesmo do tipo de muito se cobrar. Joaquim tinha esse sentimento de que a vida era mesmo coisa grandiosa. Portanto não a queria desperdiçar. Era dedicado aos estudos, muito embora pouco se interessasse por algumas matérias. Assim ele cresceu escutando de seu pai a importância dos estudos, e a autoridade da palavra de seu pai bastava para ser verdade. Então esforçava-se ao máximo e estava sempre entre os primeiros de sua turma, e isso desde muito criança. Crescera habituado as pessoas esperarem muito dele, talvez daí essa pressão e exigência pesada consigo mesmo. E os estudos para ele eram coisa a que dedicava muito gosto e prazer, o que recompensava qualquer sacrifício. E assim ele seguia se domesticando o quanto fosse suportável para então ser motivo de orgulho. E conseguia. Era sempre cercado de elogios. Mas aprendera que tais elogios e honrarias não vinham gratuitamente. Apenas ele sabia o custo. Bobagem para alguém como Joaquim, era do tipo sempre disposto a sacrifícios que trouxessem expressivos resultados. Acreditava mesmo que somente através de sacrifícios e disciplina, alcança-se o que, por essa época, ele enxergaria como valido à pena. E por algo que valesse a pena ele compreendia ser a coisa pela qual se acredita e, de igual modo, pela qual se chega a um bem maior.

  Nesse afã da juventude iniciada, Joaquim sentia-se emaranhado na assustadora temática do sexo. Na realidade era deveras confusa. Seus desejos eram coisas que, por todo lugar, todos diziam como deveria ser. Era coisa de domínio público. A religião o ensinava tantas regras. Com esta ele convivia de perto e desde cedo. Ouvia de amigos, e mesmo em qualquer lugar, aquilo que era dito o normal, e que deveria ser o seu comportamento. Sentia a pressão de sentir a necessidade de ser um igual. O problema, ou poder-se-ia dizer, a virtude de Joaquim, era a de questionar. Ele estava sempre se questionando e, conseqüentemente, questionando o que lhe fora externo. Tudo o que lhe diziam, antes de qualquer conclusão, passava por interrogações. Dessa vez, as interrogações se encontravam com seus próprios desejos.

E talvez aqui comece a verdadeira inquietação de Joaquim. Talvez nesse quesito, tão íntimo, tão pessoal, tão particular, se vira confrontado com a sua necessidade que, sempre com olhos para o externo, para aquilo que de dentro – a sua existência -, faria para fora – o mundo -, ele parou e, pela primeira vez, fora tomado pelo medo, o medo de não mais querer continuar na sua busca. Quando finalmente se deparara com a distância, o verdadeiro abismo que separa o ser e o ter que ser.

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Eu sempre me ponho no meu lugar.
Jamais atravesso a fronteira do que eu posso ser.
Aprendi nos mínimos detalhes o limite imposto às pessoas menores.
Os grandes homens atravessam pontes em ruínas cheios de pompas.
Eu mal atravesso uma ponte de puro concreto sem certo ar de preocupação.
Me ensinaram a ser pequeno.
A rastejar por entre as botas brilhantes dos que impõem a ordem do mundo.
Me teceram como um capacho.
E cumpro com exata perfeição a minha função no mundo: servir.
Com a boca fechada, os braços abertos…
Com um sorriso amarelo nos lábios…
E o rabo entre as pernas.

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Hoje de manhã levei o maior susto.

Amanhã-a-Noite

Entre o amanhecer e o anoitecer

Acordei, levantei, lavei o rosto, abri a janela do quarto e lá não estava: era de manhã, mas o dia não havia amanhecido.

E o pior: o dia não era ontem, nem anteontem, nem hoje… era dia nenhum.

Era um vácuo, um nada abstrato, um não clarear, um não ter sol, num não ventar, um não ter como sair à rua, pegar o ônibus, ir à praia, ir trabalhar.

Era um não-dia, um não-amanhecer, uma não-existência.

Da janela eu observava sem observar o dia que não havia amanhecido.

Liguei o rádio, sem som; liguei a tv, sem imagem; tomei o café, sem gosto; tomei a água gelada, sem gelo, falei comigo mesmo, sem voz; esmurrei a porta, sem dor; tentei sofrer, sem sofrimento; tentei chorar, sem lágrimas.

Nada, a vida naquela manhã não amanhecida era um completo vazio de vida, um completo não existir de existência, um completo não amanhecer de amanhecimento.

Procurei no vazio sem horizontes um sinal de que me indicasse o sonho, o pesadelo metafórico da negação da continuidade da vida.

Nada!

Nem um minúsculo ponto de esperança na tela inexistente da manhã não amanhecida.

E senti sem sentir que eu também não havia amanhecido.

Que me encontrava no limbo entre um momento qualquer da minha existência e a manhã não acontecida.

Que me encontrava na fronteira entre o ser e o não-ser.

Um ser-não-ser metafísico aprisionado na sua própria negação da vida.

Na sua própria atitude de correr atrás do rabo… eternamente.

Sem a menor possibilidade de seguir em frente.

Na turbulência lírica da ausente manhã não amanhecida.

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Depois da minha morte

Depois da minha morte, que uma coisa fique registrada.

Eu sofri em vida.

Sofri os horrores de sentir.

Sentir ao extremo cada momento da minha vida.

E não ter como, não saber como explicitar os meus sentimentos para o mundo.

E tudo ardia.

Uma grande fogueira queimava o meu coração.

E consumia minha alma em segundos.

E eu não conseguia.

Não conseguia colocar pra fora, vomitar mesmo, aquele momento cruel, duro, torturante… sensível.

Eu tentava.

Um lápis, um papel em branco… uma crônica, um poema apático e sem alma.

E vasculhava os vocabulários.

À procura de palavras que pudessem demonstrar o meu sofrer doído.

Nada!

Nenhum dicionário continha as palavras certas para mostrar o meu sentimento para com o mundo.

Um pedreiro sem prumo.

um mecânico sem ferramentas.

Um cirurgião sem bisturi.

Um jogador de futebol sem pernas.

Um político sem a língua.

Um poeta sem os versos.

Um homem sem som.

Um homem amorfo.

Um coração de vulcão.

Uma alma de furacão.

Uma sensibilidade passional.

Apenas um homem…

Que não conseguiu expelir no mundo a sua efervescência lírica.

A sua paixão desenfreada.

O seu sofrimento pleno.

A sua dor de existir.

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A esmola

– Um amigo meu, Pernambucano, dizia que, no Recife, o pedinte tem um comportamento único: quando ele lhe aborda, alguma coisa ele tem que tirar de você.

pedindo-esmola-rua

– É como se fosse uma ordem: “me dê!!!”
– Assim contava meu amigo, a pretexto de piada:
—–
– Você, na rua:
– Pedinte: me dê uma moeda!
– Você: tem não!
– Pedinte: uma bala!
– Você: tem não!
– Pedinte: então, me dê um cigarro!
– Você: num fumo não!
– Pedinte: que é isso no bolso da camisa?
– Você: colírio!
– Pedinte: – abrindo o olho com as duas mãos – me dê, pingue uma gotinha aqui pra mim!!!
—–
– Ou você em casa: tap! tap! tap! tap! (palmas).
– Você: o que foi?
– Pedinte: me dê um prato de comida!
– Você: tem não!
– Pedinte: um pedaço de pão!
– Você: tem não!
– Pedinte: uma banana!
– Você: tem não!
– Pedinte: uma laranja!
– Você: tem não!
– Pedinte: então, me dê um copo d’água!!!
—–
– Infelizmente, meu amigo estava errado. Não é só no Recife que isto acontece.
– A miséria, hoje, está cada vez mais exigente.
– Por trás dela, nas grandes cidades, existem organizações que a exploram de maneira extremamente profissional.
– Sua esmola pode não estar suprindo a necessidade imediata dos miseráveis; pode, sim, estar enriquecendo pessoas sem escrúpulos.
– Cuidado com a esmola! Ajude os necessitados de uma maneira diferente!
– Principalmente, se forem crianças!

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males-da-modernidadeCaminhar 40 minutos por dia é bom pra saúde.
Não comer picanha gordurosa é o canal.
Comer muita verdura é fundamental.
Não fumar é o que se espera do homem moderno.
Fuder… só com camisinha, ou depois do casamento.
Dormir cedo é bom pra pele.
Academia é uma necessidade do homem/mulher atual.
É impossível viver sem internet.
Sexo é bom pro coração.
Vitamina xy retarda a velhice.
Botox te deixa jovem.
Ser vegetariano é o ‘tchã’.
Fique esperta com o seu namorado.
Mulher tá na crista da onda.
Os tempos mudaram, amar a gente aprende na banca de revistas.
Pratique esportes, a inteligência agradece.
Bebida alcoólica, só pra doidos.
Seja feliz, aprenda a entender o seu chefe.
Cirurgia plástica, o canal da felicidade da mulher dos tempos atuais.
Homens e carros, uma receita feliz.
O importante é o trabalho.
Homossexualidade: assuma, hoje é chique.
Chocolate, só se for escondido dos amigos.
Apartamento em 30 anos, o sonho se realiza.
Uma viagem para New York, você vai amar!
Um Honda, ai meu Deus!
Caralho!
Vida maneira a dos tempos de hoje.
Tudo pronto!
Tudo certinho!
Os ‘home’ tão com tudo.
Só depende de mim.
O sucesso dos caras só depende da minha estupidez.
O resto, segundo a Globo, “a gente se vê por aí”.
E vamos deixar de ser gente pra ficar ‘chatissimamente corretos’.
Que é o próximo passo da educação de massa…
E a destruição da sensibilidade da raça humana.
E aí, você ainda toma uma cervejinha sem remorsos?
Ou consulta algum manual?

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