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Archive for the ‘Ciências’ Category

Muitos dizem que em breve o mundo vai crescer de uma maneira tão vertiginosa que faltara espaço e alimento. Talvez nesse ponto seja preciso controlar a natalidade populacional. Mas será que isso realmente é um fato social? O homem tem o direito de interferir no processo de criação?

O espectro da superpopulação volta à tona em 2008 em função da baixa passageira de estoque de alimentos da aceleração da degradação do ambiente. Dar uma olhada nos números não é nada confortante: 80 milhões de pessoas a mais no mundo por ano.

Porém, a humanidade não esperou o início do séc. XXI para se preocupar com a superpopulação. Platão e Aristóteles recomendavam aos Estados uma estrita regulamentação da natalidade, o que leva a questão da superpopulação mais como uma questão cultural do que de números. Desde o crescei-vos e multiplicai-vos bíblico vemos o confronto entre natalistas e simpatizantes do controle de natalidade.

Durante muito tempo não se dispôs de estatística – Como não era possível se apoiar em dados, o debate era filosófico, político e religioso. Mas ainda hoje, mesmo com a massa de dados disponíveis a uma forte tendência para um debate apaixonado – e por milhares de anos temeu-se um número muito baixo de nascimento.

Há quarenta mil anos atrás, com meio milhão de habitantes sobre a terra, essa ameaça parecia estar bastante distante. Porém os caçadores necessitavam de um espaço vital que assegurasse a disponibilidade de alimento através da caça. Portanto, a superpopulação é uma noção de geometria variável. Mesmo assim, o imaginário do que é uma superpopulação, continua sendo a de pessoas comprimidas em um ambiente diminuto como em uma lata de sardinhas.

Já na Grécia Antiga, o relevo impunha uma compartimentação: cada bacia se organizava como cidade independente, em dimensões reduzidas. Dessa forma, Platão define uma população ótima em função do espaço e dos recursos disponíveis, e descreve os métodos de organização e funcionamento social. Aristóteles segue o mesmo caminho: De todo modo um número muito grande não pode admitir a ordem. O pensamento democrático grego já coloca os termos do debate tal como encontramos no período contemporâneo: ele é eugenista, malthusiano e xenófobo.

Com extensão do mundo romano, muda-se a escala mais não a mentalidade. A política dos governos é mais natalista. Que constitui uma novidade e um fracasso, pois a natalidade romana continua baixa se comparada a de outros povos.

Com a chegada do cristianismo, a questão passava do mundo cívico e político para o registro religioso e moral. Um intenso debate se estabeleceu em torno dos méritos respectivos da virgindade. Porém o velho testamento não traz nenhuma ambigüidade: Crescei-vos e multiplicai-vos. Com isso na Idade Media houve um crescimento populacional significativo.

Assim seguiu o mundo ocidental até o início do séc. XIX. Ora o povo era visto como um flagelo, ora como uma riqueza. Todos desenvolveram suas explicações e formularam suas recomendações, embora a ferramenta estatística continuasse muito deficiente.

Com isso, a obra de Thomas Malthus é um divisor de águas na história demográficas. A população afirma o economista e pastor britânico, aumenta mais rápido que a produção de alimentos, o que inevitavelmente conduzirá à superpopulação e à fome em grande escala. Se deixarmos assim, as conseqüências serão brutais e dolorosas, com a natureza encarregando-se de eliminar o excedente humano; ou então realizamos o controle de natalidade. Segundo Malthus a rápida disseminação da miséria é um risco para toda a humanidade.

Contrapondo Malthus, Pierre-Prouhon respondeu que não havia problema de superpopulação. Se a miséria se propaga, é por causa do sistema ofensivo de propriedade que confere a alguns um poder injusto sobre os outros. Karl Marx pouco interessado na questão demográfica em si, considerava Malthus um inimigo da classe trabalhadora, referindo-se a ele como um insolente a serviço da classe dirigente, culpado do pecado contra a ciência e da difamação da raça humana.

Há somente um homem excedente na Terra: Malthus (Pierre-joseph Proudhon).

Esses debates prosseguiram até meados do século XX, quando a humanidade entra em um crescimento desenfreado: três bilhões de pessoas em 1950, 6 bilhões em 2000. Os demógrafos, filósofos, políticos e religiosos ficam dividido quanto à interpretação do fenômeno.

Mas na virada do século os antimalthusianos buscam tranqüilizar, apoiando-se nos fenômenos de transição demográfica em curso: as taxas de fecundidade estão desmoronando em todos os lugares, inclusive em países muito pobres. Assim a população se estabilizaria em torno dos nove bilhões em 2050 e 10 bilhões por volta de 20150. Dado que esse planeta garante a maioria dos demógrafos, seria capaz de alimentar ainda 10 bilhões de pessoas.

Mas é desejável atingir esse número? Afinal o empilhamento de 10 bilhões de pessoas, mesmo que fossem bem alimentadas, continua sendo um empilhamento de gente.

No início de 2012, espera-se a chegada do sétimo bilionésimo cidadão do mundo. Esse pequeno tem sete chances em dez de nascer em um país pobre, em uma família desfavorecida. Devemos enviar-lhe uma carta de boas-vindas ou uma carta de desculpas?

Resumo do artigo: Um planeta muito populoso, de George Minois (demógrafo) escrito para o Le Monde Diplomatique Brasil.

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Partindo do princípio do que se convencionou chamar virada lingüística e, de igual modo, de uma crítica ao positivismo, Michel Foucault (França – Poitiers, 15 de outubro de 1926 — Paris, 25 de junho de 1984) lança as bases de sua teorização, que se concentra em torno de uma arqueologia do saber filosófico, da experiência literária e da análise do discurso, além de ser um pensador da relação entre poder e governo. A partir de 1946 vai estudar na Escola Normal Superior da França. Ai conhece e mantém contatos com Pierre Bourdieu, Jean-Paul Sarte, Paul Veyne, entre outros. Na Escola Normal, Foucault também é aluno de Maurice Merleau-Ponty.

“Foucault preferia ser chamado de ‘arqueólogo’, dedicado à reconstituição do que mais profundo existe numa cultura – arqueólogo do silêncio imposto ao louco, da visão médica (Naissance de la clinique, 1963; Nascimento da Clínica), das ciências humanas (Les Mots et les choses, 1966; As Palavras e as Coisas), do saber em geral (L’Archeologie du Savoir, 1969; A Arqueologia do Saber)”.

Numa perspectiva de virada cultural, para o pensador, o papel da ciência começa a ser questionado quanto a sua superioridade em relação ao conhecimento do “nativo”, e nisto observa-se também a crítica de que a ciência não é necessariamente conhecimento objetivo, antes ela se insere, faz parte, de uma cultura, isto é, ela é um produto cultural e, também, está contextualizada em dado grupo e determinada época. Não se trata então, de acordo com tal perspectiva, de pensar a ciência como aquela produtora do conhecimento que será aplicado na sociedade, porém a questão agora é pensá-la em relação com o conhecimento produzido na sociedade, em outros termos, no senso comum.

Para ele, a linguagem é autônoma e, por isso, a sociologia deve se preocupar com ela. Nisto ele afirma que a constituição de um indivíduo acontece a partir do discurso, ou seja, se trata de uma constituição discursiva. Tratarei desse ponto mais adiante. O argumento central dessa perspectiva que podemos chamar de hermenêutica, é a concepção que tem da cultura e, também, onde reside a crítica ao positivismo ao afirmar que todo conhecimento passa pela cultura, não sendo, portanto – o conhecimento científico – objetivo, como postulava o credo positivista. O conhecimento então é também interpretação, quer dizer, a ciência interpreta a cultura para explicá-la. Outro aspecto importante é a concepção estética e, nesse ponto, ele recupera Nietzche: “a ciência é uma espécie de cultura, ela deve se concentrar na valorização do ser humano”. E nisto consiste esta concepção estética, que critica a ciência, posto ver a ciência esmagando os seres humanos.

O problema da hermenêutica, rejeitada por Marx, reside em definir como papel da ciência a defesa da cultura, das especificidades, o que denota claramente uma visão de pluralidade. Para essa visão, na medida em que se buscam universalidades, está assim destruindo culturas.

Retomando a questão da virada lingüística nas Ciências Sociais, o que passa a ser objeto de estudo é a própria linguagem, em lugar da cultura. Nesse momento, um grande e importante pensador dessa concepção de virada lingüística, é  Wittgnstein (Ludwig Joseph Johann Wittgenstein, Viena, 26 de Abril de 1889 — Cambridge, 29 de Abril de 1951 – filósofo austríaco, naturalizado britânico, um dos principais autores da virada lingüística na filosofia do séc. XX). Para ele, a linguagem é algo constitutivo do mundo. Ele compara a linguagem à cidades, onde da mesma forma que o mundo está dividido em cidades, assim também o mundo está dividido em linguagens diversas, onde não há uma mais objetiva que a outra. Este conceito se tornou fundamental nas Ciências Sociais, posto que a sociologia, a partir de então, se torna uma análise da linguagem. Têm-se aqui uma análise textual e semi-ótica – ligada aos símbolos e imagens. Observa-se neste ponto uma mudança quanto ao objeto da sociologia – em relação aos clássicos da sociologia: Marx, Durkeim e Weber.

Para Foucault, a constituição do sujeito acontece a partir do discurso, sendo uma constituição discursiva. Segundo ele, a linguagem é um retrato da realidade, e cada realidade tem uma linguagem diferente. No tocante a isto, ele apresenta a questão dos sistemas de poder, que para ele é exatamente desta forma que está dividida a sociedade na contemporaneidade/modernidade, acrescendo que não se entende o desenvolvimento do conhecimento moderno como instrumento de emancipação, pelo contrário, é de sujeição. Tais sistemas de poder são os aparelhos do Estado e suas instituições, onde se localiza o centro de poder para Foucault, haja vista estarmos numa sociedade da linguagem, o poder se desloca do Estado – como o via Hobbes – para as suas instituições na sociedade civil. E o exercício do poder é constituído de uma materialidade que penetra a estrutura dos corpos e, nestes mecanismos corporais e em seus atos, se encontra o biopoder, como uma autônoma política do corpo, em cuja base estão os processos de disciplinamento corporal.

De acordo com Foucault, o poder está no discurso, e este se torna um aparelho de autodisciplina do sujeito – esta tem relação com sua concepção de subjetivação. Desta forma, ele quer mostrar que todo conhecimento é relativo e depende do sistema de poder, isto é, dos códigos lingüísticos, haja vista que todo conhecimento passa pela linguagem e é linguagem. Então, para ele, o mundo moderno desenvolveu um aparelho de poder específico que incitou, por exemplo, as pessoas a falarem e pensarem sobre sexo, o que provoca o discurso numa esfera de autodisciplina, onde o indivíduo é absorvido nesse mecanismo de dominação. Como para ele a linguagem é uma instituição, e toda instituição é um sistema de poder, o falar sobre sexo, por exemplo, não é um ato emancipatório, pois a característica central é o discurso e este está imbuído de poder.

No que se refere à temática do sexo, Foucault dirá que através dela pode-se bem perceber o biopoder. Sendo este – o biopoder -, um poder sistêmico porque desenvolvimento de um poder político, tendo o Estado como condicionador do comportamento e conduta do sujeito, exercendo um tipo de poder que ele chama de poder pastoral (bem no sentido religioso cristão que enxerga as pessoas como rebanho), é ele, em última instância, que fornece e cria o desejo nas pessoas. Daí ele não enxergar como prática emancipatória o falar sobre sexo. (Apenas fazendo um adendo, é sempre importante contextualizar o autor em sua época para enxergar suas contribuições e seus limites). É importante lembrar que Foucault, em meados da década de 1970, se aborrece com a proposta de Cauguilhem de tornar a sexualidade um tema de investigação filosófica. Quanto a este episódio, ele responde com uma pergunta que dá bem o tom de antipatia à ideia de Cauguilhem: “por que a sexualidade é objeto de uma preocupação moral?”. Tal indagação “desarma a ‘naturalidade’ da questão, já deixa de ser óbvio que o sexo é um problema moral: está claro que alguém, alguma instituição, um poder necessita que o sexo seja supervisionado pela moral”.

Ao mesmo tempo que Foucault coloca como sendo central para as Ciências Sociais a linguagem por esta ser autônoma, ele também diz que a linguagem instituída, no exemplo do falar sobre sexo, não se trata de prática emancipatória, visto que a instituição linguagem é perpassada pelo poder que, para ele, pressupõe dominação. Seria isto uma contradição no pensamento foucaultiano? A meu ver, se bem entendi o que o autor quis dizer quanto a esta questão, há o que chamaria de paradoxo. Na medida em que a linguagem se torna institucionalizada nos aparatos do Estado, ela perde seu caráter autônomo e passa a estar imbuída pelo discurso que este ente – separado da sociedade civil – define como padrão e/ou correto, condicionando assim as situações de fala – para usar termo habermasiano. Nisto, se não me equivoco, não me parece ser uma contradição no pensamento de Foucault, antes ele está apontando para um sutil problema, a saber, o da linguagem se tornar discurso de dominação que, como vimos, sendo a constituição de um indivíduo realizada através do discurso, daí ele afirmar, no exemplo do falar sobre sexo, não se tratar de prática emancipatória. Essa a minha hipótese, e apenas hipótese. Eis aqui uma boa questão, em Foucault, para pensarmos.

Dado o explicitado aqui, podemos observar e inferir que, para Foucault, a ciência é um tipo de instrumento de dominação, o que permitirá ele entender, como papel do sociólogo, ficar ao lado do conhecimento “desqualificado” para requalificá-lo, aquele que está no mundo, isto é, no interior da sociedade. Sintomática sua proposta quanto a isso, pois tendo em vista a hipótese que lancei acima – o conhecimento, o discurso, no limite, a linguagem própria ao campo científico estar ligada aos aparatos do Estado -, Foucault afirmar que, em muitos casos, a fala não se realizar como prática emancipatória. Também nos é perceptível a total mudança, para Foucault, do objeto das Ciências Sociais, como não sendo mais as relações sociais em seu aspecto material, tendo o trabalho como categoria central de análise. Categoria esta cara aos clássicos da Sociologia (Marx, Durkheim e Weber).

Fonte (biográfica):

http://vsites.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/bio2.pdf

http://vsites.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/bio1.pdf

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Neste artigo, tentarei apresentar as propostas de Karl Raimund Popper (Viena, 28 de Julho de 1902 — Londres, 17 de Setembro de 1994, foi um filósofo da ciência austríaco naturalizado britânico. É considerado por muitos como o filósofo mais influente do séc. XX a tematizar a ciência. Foi também um filósofo social e político de estatura considerável, um grande defensor da democracia liberal e um oponente implacável do totalitarismo) no que tange o critério de falsificabilidade como critério de demarcação nas ciências empíricas, isto é, entre o discurso científico e outros tipos de conhecimento, na tentativa de estabelecer um critério que permita distinguir uma teoria científica da metafísica. Para tanto, faz-se oportuno e fundamental refletir sobre as seguintes questões: Como demarcar uma teoria científica? Quais são os critérios necessários?

O autor, em sua obra A Lógica da Pesquisa Científica, inicia fazendo uma crítica a proposição empirista que, como critério de demarcação para separar o que é ciência do que é metafísica, propunham o critério do verificacionismo, caracterizada pelo fato de empregarem os chamados “métodos indutivos”, critério segundo o qual uma proposição é significativa se, e apenas se, puder ser verificada empiricamente, isto é, se houver um método empírico para decidir se é verdadeira ou falsa. Segundo o processo de indução, o sentido cognitivo de uma frase é o seu método de verificação – Moritz Schilick e F. Waismann – e se chega a leis universais através da indução, onde o enunciado só é comprovado a partir de sua verificação, sendo, portanto uma generalização. A partir do momento que certas condições sejam satisfatórias, é legítimo generalizar de observações singulares para uma lei universal. Popper contrapõe-se ao critério adotado pelos indutivistas que, por sua vez, pelo método da lógica indutiva, ambicionavam demarcar aquilo que poderia ser legítimo ou não em ciência. Com isto, o autor não pretende voltar ao ideal positivista de instituir critérios de sentido que excluam ou marginalizem qualquer tipo de saber (especialmente o metafísico), fazendo com que a Ciência estivesse protegida de toda e qualquer “tentação” metafísica.

A preocupação do nosso autor é diferenciar a ciência da pseudo-ciência.  Para ele, as questões que se colocam são do tipo: Quando deve ser considerada científica uma teoria? Qual o critério que determina o status científico de uma teoria? A resposta à essas questões que ele conhecia dizia que “a ciência distingue-se da pseudo-ciência – ou da metafísica – pelo seu método empírico, que é essencialmente indutivo, isto é, que parte da observação ou da experimentação”, resposta essa que não o convencia. No raciocínio indutivo passamos de um caso (isto é, de um juízo particular) para todos os casos (isto é, para um juízo universal). Para Popper, este critério possui uma complicação, qual seja: se os juízos da experiência são sempre particulares e contingentes (isto é, a relação que neles se estabelece entre o sujeito e o predicado é particular e contingente), como se pode formular um juízo universal e necessário que legitime as pretensões das ciências de possuírem leis com um caráter universal e necessário? Para ele, a conclusão de um argumento, não poderia ter mais alcance do que suas próprias premissas. É errôneo uma proposição científica de caráter universal se fundamentar em premissas que consistem num conjunto finito de proposições singulares. Desse modo, o positivismo difundiu uma concepção amplamente aceita, tornando-se paradigma (nas ciências naturais, posteriormente tentando estendê-lo ao âmbito das ciências em geral), que identifica a ciência como uma atividade estritamente indutiva que, a partir de umas tantas observações e experiências, avança hipóteses e formula leis sobre os fenômenos, procedendo depois à sua generalização e verificação.

Popper então propõe que, ao contrário do que se dizia, o trabalho do cientista consiste em elaborar teorias e pô-las à prova. Eis o princípio fundamental do seu falsificacionismo a partir do qual se poderia determinar a cientificidade de uma proposição: uma proposição só pode considerar-se científica, se dela for possível deduzir um conjunto de enunciados de observação que possam falsificá-la, ainda que não a falsifiquem necessariamente. Para ele, o que certifica e determina a cientificidade de uma teoria, é o fato dela ser falsificável, pois permite avaliar o seu grau de verossimilhança e, desse modo, afastá-la e demarcá-la de teorias pseudo-científicas.

Podemos tentar resumir os critérios propostos por Popper para determinar o estatuto científico de uma teoria, aos seguintes princípios:

* Uma teoria que não é susceptível de refutação não é considerada científica. A irrefutabilidade não é uma virtude, mas sim um erro;

* Todo o teste ou contrastação é uma tentativa para refutar uma teoria. Neste sentido, quanto mais à prova a teoria for exposta equivale à refutabilidade. Algumas teorias são mais testáveis e, por isso, estão mais expostas à refutação;

* A descoberta de novos fatos que estão de acordo com as predições de uma teoria, não confirmam por si só a teoria, mas única e exclusivamente a corroboram. Uma teoria que é corroborada, quando passa em um teste ou contrastação com outras teorias, isto é, quando uma observação cujo resultado poderia eventualmente refutar a teoria não se confirma, robustece a própria teoria sem, no entanto a confirmar.

É importante ressaltar, que o critério de falsificabilidade proposto por Popper, não consiste num critério de sentido ou significação, mas sim no traçar de uma linha divisória entre o discurso científico e outros tipos de conhecimento. As afirmações de caráter metafísico não possuem estatuto científico na medida em que não são susceptíveis de serem falsificadas; o seu caráter de sentido ou significação não é posto em causa; é este fato que nos permite diferenciar Popper das posições assumidas pelos autores do positivismo lógico.

Entendamos melhor este critério de falsificabilidade.

Popper estabelece quatro diferentes linhas ao longo das quais se podem submeter à prova uma teoria:

1º- “[…] comparação lógica das conclusões umas às outras, com o que se põe à prova a coerência interna do sistema”.

2º- “[…] investigação da forma lógica da teoria, com o objetivo de determinar se ela apresenta o caráter de uma teoria empírica ou científica, ou se é, por exemplo, tautológica”.

3º- “[…] comparação com outras teorias, com o objetivo de ordem científica, no caso de passar satisfatoriamente as várias provas”.

4º- “[…] comprovação da teoria por meio de aplicações empíricas das conclusões que dela se possam deduzir”.

Isto é o que o autor chama de Prova Dedutiva de Teorias, dado que, uma vez propostas, as teorias terão que ser comprovadas rigorosa e implacavelmente pela observação e a experimentação. As teorias que não superam as provas observáveis e experimentais devem ser eliminadas e substituídas por outras conjecturas. A ciência progride graças ao ensaio e ao erro, às conjecturas e refutações. O método da ciência é o método de conjecturas audazes e engenhosas seguidas de tentativas rigorosas de falseá-las. Só sobrevivem as teorias mais aptas, em outras palavras, àquelas que forem mais resistentes às provas. Nunca se pode dizer, portanto, que uma teoria é verdadeira, pode-se dizer com otimismo que é a melhor disponível, que é melhor que qualquer das que existiam antes. Segundo as palavras do próprio autor:

“Importa acentuar que uma decisão positiva só pode proporcionar alicerce temporário à teoria, pois subsequentes decisões negativas sempre poderão constituir-se em motivo para rejeitá-la. Na medida em que a teoria resista a provas pormenorizadas e severas, e não seja suplantada por outra, no curso do progresso científico, poderemos dizer que ela ‘comprovou sua qualidade’ ou foi ‘corroborada’ pela experiência passada”.

Segundo o falsificacionismo, pode-se demonstrar que algumas teorias são falsas recorrendo aos resultados da observação e da experimentação. Por outro lado é possível efetuar deduções lógicas, partindo de enunciados observáveis singulares como premissas, e chegar à falsificação de teorias e leis universais mediante uma dedução lógica. Utilizando um exemplo dado pelo próprio Popper: num determinado lugar e num determinado tempo, observou-se um corvo que não era negro. A conclusão a que se chega é a de que nem todos os corvos são negros. Assim, podemos dizer que se trata de uma dedução logicamente válida.

Seguindo o método popperiano, o que se explora ao máximo é a questão lógica. Considera-se aqui que a ciência é um conjunto de hipóteses que se propõem a modo de ensaio com o propósito de descobrir ou explicar de um modo preciso o comportamento de algum aspecto do mundo ou universo. No entanto, nem todas as hipóteses o conseguem. Há uma condição fundamental para que qualquer hipótese tenha o estatuto de teoria científica ou lei científica, essa hipótese tem de ser falsificável. E uma hipótese é falsificada se existe um enunciado observável ou um conjunto de enunciados logicamente possíveis que sejam incompatíveis com ela, isto é, que em caso de serem estabelecidos como verdadeiros, falsificariam a hipótese. A idéia é a seguinte: para que uma teoria possua um conteúdo informativo, terá que correr o risco de ser falsificada.

Então, uma boa teoria ou lei científica é falsificada justamente porque faz afirmações definidas acerca do mundo. Toda boa teoria será aquela que faz afirmações de amplo alcance acerca do mundo e que, ao ser testada, resista à falsificação. As teorias que tenham sido falsificadas devem, por conseguinte, ser rejeitadas, visto que, como afirma Popper, ao descobrirmos que a nossa conjectura era falsa, aprendemos muito sobre a verdade e chegaremos mais perto dela. Aprendemos com os nossos erros. “A ciência progride mediante o ensaio e o erro”.

O progresso da ciência, tal como o vê o falsificacionista, poderá resumir-se da seguinte forma:

* a ciência começa com problemas, problemas que estão associados à explicação do comportamento de alguns aspectos do mundo;

* o cientista propõe hipóteses falsificáveis para solucionar os problemas;

* as hipóteses são criticadas e comprovadas, algumas são eliminadas rapidamente, outras podem ter mais êxito;

* estas devem submeter-se a críticas e provas mais rigorosas;

* quando finalmente se falsifica uma hipótese que tenha superado com sucesso uma grande variedade de testes, surge um novo problema, que é a invenção de novas hipóteses, seguidas de novas críticas e provas.

Este processo continua indefinidamente. Por isso nunca se pode afirmar que uma teoria é verdadeira, por muitas provas rigorosas que tenha superado, somente podemos afirmar que a teoria em vigor é superior às suas predecessoras, no sentido de que foi capaz de superar testes que falsificaram as teorias anteriores. No dizer de Popper “(…) só há um caminho para a ciência: encontrar um problema, ver a sua beleza e apaixonar-se por ele; casar e viver feliz com ele até que a morte nos separe – a não ser que obtenhamos uma solução. Mas, mesmo que obtenhamos uma solução, poderemos então descobrir, para nosso deleite, a existência de toda uma família de problemas-filhos, encantadores ainda que talvez difíceis, para cujo bem-estar poderemos trabalhar, com um sentido, até ao fim dos nossos dias”.

Fonte: K., Popper, A Lógica da Pesquisa Científica, São Paulo, editora Cultrix.

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Você sabia que em breve o mundo vai acabar? Que na verdade um Tsunami seria uma arma de destruição em massa? Que os judeus dominam o mundo? Que todas as nossas ações são monitoradas pela CIA e pelo FBI? Que ETs teriam cedido tecnologias aos humanos para estudá-los?

E que tudo isso não passa de uma grande teoria da conspiração?

Na verdade, esse termo é utilizado para se referir a qualquer tipo de teoria que tente explicar um evento através do resultado e um plano secreto de ordem global.

Atualmente as teorias da conspiração ganharam força em função dos meios de comunicação e do cinema de hollywoodiano que mistura a realidade com a ficção.

Para que uma conspiração ganhe notoriedade é preciso que se trate de um acontecimento de grande escala e que interesses e conflitos de diversos grupos estejam em jogo. Dessa forma, a versão oficial acaba sendo contestada.

Nessa teia de conspiração, é importante apontar para um grupo de elite que manipule essa versão oficial para manter tudo em segredo.

Relacionando fatos antigos, a teoria fica mais convincente e parece embasada em fontes históricas. Outro aspecto importante é quanto o de espalhar o desespero. Deve-se demonstrar que se essa “verdade” for ignorada os efeitos podem ser catastróficos.

Porém, nos tempos modernos é importante ter cautela com opiniões pré-aceitas. As maiorias desses argumentos conspiratórios não passam de desesperados esforços de fugir da responsabilidade.

Conforme Hannah Arendt cita: Platão em seu conflito contra os sofistas descobriu que a arte universal de encantar os espíritos com argumentos, nada tinha a ver com a verdade, mas só visava à conquista de opiniões.

Em resumo, as teorias da conspiração devido à deficiência crítica dos seus defensores são baseadas em argumentos supérfluos. No geral, esses profetas da conspiração não se baseiam em fontes seguras, mas em puro achismo.

 

Karl Popper (Viena, 28 de Julho de 1902 — Londres, 17 de Setembro de 1994) foi um filósofo da ciência austríaco naturalizado britânico

Qualquer afirmação que não pode ser refutada, portanto não pode ser testada e não pode ser considerada uma afirmação científica (Karl Popper).

Assim, para não cair nessa armadilha, deve-se questionar e buscar evidências concretas sempre que for possível. A honestidade intelectual sempre deve prevalecer diante dessa “arte” de não argumentar utilizadas por esses teóricos da conspiração.

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Uma crônica que demonstra a questão do biopoder é a EXIGÊNCIAS DA VIDA MODERNA de Fernando Veríssimo. De forma bem humorada, ele relata as nossas necessidades ao longo do dia que devem ser supridas para que a vida continue saudável e estável.

O termo Biopoder foi criado pelo filósofo francês Michel Foucault para referir-se à prática dos Estados modernos quanto a regulação dos que a ele estão sujeitos por meio de “uma explosão de técnicas numerosas e diversas para obter a submissão dos corpos e o controle de populações”.

Consequentemente se buscamos seguir a risca todas essas exigências do nosso dia-dia, teriamos severos problemas com o nosso corpo e bem-estar como o próprio Veríssimo ironiza abaixo:

Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro.

E uma banana pelo potássio.

E também uma laranja pela vitamina C. Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.

Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.

Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão).

Cada dia uma Aspirina, previne infarto. Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso. Um copo de cerveja, para… não lembro bem para o que, mas faz bem. O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.

Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitíssima fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver.

Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente. E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia…

E não esqueça de escovar os dentes depois de comer. Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax. Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.

Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma.
Sobram três, desde que você não pegue trânsito. As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).

E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.

Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.

Ah! E o sexo! Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo – e nem estou falando de sexo tântrico.

Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação. Na minha conta são 29 horas por dia.

A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo! Por exemplo, tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes. Chame os amigos junto com os seus pais. Beba o vinho, coma a maçã e a banana junto com a sua mulher… na sua cama.

Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.
Agora tenho que ir.

É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro.

E já que vou, levo um jornal… Tchau!

Viva a vida com bom humor!!!

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Se por um lado a tecnologia abre novas perspectivas para matar com mais precisão por outro não consegue superar os desafios de lidar com insurreições populares e menos ainda quanto à morte de civis.

Para se ter idéia do tamanho do estrago, somente na primeira guerra mundial 9 milhões de pessoas foram mortas. Já na segunda guerra o saldo chega a  60 milhões de pessoas.

Conforme o tempo vai passando o homem vai ficando cada vez mais apto a destruir, monitorar e dominar novos territórios; como demonstra os dados sobre a evolução armamentista que se segue abaixo:

1870 – Motor de explosão

1880 – Encouraçado

1884 – Metralhado automática

1905 – Transmissão sem fio

1914 – Granadas e minas

1915 – Lança chamas e gases tóxicos

1916 – Tanques

1917 – Primeiros bombardeios/metralhadoras leves

1930 – Drone (avião teleguiado)

1935 – Radar

1939 – Produtos neurotóxicos, minas anti personal

1942 – Mísseis V2, lança foguete portátil e bombas incendiarias

1943 – Bombas atômicas, mísseis teleguiados

1945 – Bomba Atômica americana

1949 – Bomba A soviética

1952 – Bomba H americana e soviética

1954 – Submarino americano e propulsão nuclear

1959 – Satélites de observação

1968 – Bomba A francesa

1983/1993 – Programa de armamento Iniciativa de defesa estratégica (guerra nas estrelas)

1990 – Mísseis de precisão/Mísseis antimíssil

2000 a 2010 – Guerras cibernéticas, Robôs assassinos, Equipamentos eletrônicos de combate de bombardeios furtivos

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil

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A ciência desde seu nascimento é um sistema que busca através de métodos racionais, proporcionar conhecimento de como a realidade humana funciona. Mas até que ponto isso realmente acontece? Será que a ciência é utilizada em beneficio de todos?

ciências

Atualmente, é difícil imaginar um mundo sem computadores, celulares e veículos. Todas essas tecnologias a cada dia que passa, ficam cada vez mais rápidas e eficientes.

Em função disso, os cientistas quando observados pelo senso comum, passam a idéia de que são uma mistura de engenheiros e magos. Cria-se uma falsa impressão de que a ciências pode responder todos os tipos de perguntas e que seja capaz de explicar totalmente a realidade.

O problema se agrava quando esse conhecimento é utilizado de uma maneira que privilegia um pequeno grupo em prol da maioria que nem sequer tem acesso a maioria dos benefícios que a ciência proporciona.

Os frankfurtianos (grupo de filósofos e cientistas sociais) como Adorno, Marcuse e Horkheimer atribuem a ciência instrumental, como uma forma de utilizar um determinado conhecimento para controlar e dominar a natureza humana. Isso ocorre através de técnicas eficazes de controle psicológico, utilizado para o controle da massa. Outra maneira seria através de métodos de controle do corpo do trabalhador, para que a produtividade seja maior, proporcionando assim maiores lucros para aqueles que estão no poder.

Muitas pessoas atribuem o racismo apenas a determinadas ideologias políticas, sendo que informações podem ser manipuladas por aqueles que estão no poder através das áreas como a sociologia, a psicologia e a biologia.

A eugenia nazista é um exemplo de preconceito ou forma de controle. Seus teóricos  afirmarvam poder estipular cientificamente uma hierarquia estrita entre “raças  humanas”; no topo, estava a “raça nórdica”, e em seguida, as “raças inferiores”. Na parte inferior desta hierarquia estavam  as raças “parasíticas”, ou Untermenschen (“subumanos”), os quais eram percebidos como perigosos para a sociedade.

Para se ter uma idéia, a maioria das máquinas e remédios  que utilizamos surgiram através de guerras.

A ideologia científica cria em muitos casos, uma imagem idealizada para dissimular uma neutralidade, escondendo assim, os interesses obscuros que tem o controle cada vez maior da natureza e da sociedade, segundo os interesses daqueles que investem nesses laboratórios.

DNA_Controle

A sociedade interfere cada vez menos nas decisões das empresas. O campo científico torna-se cada vez mais distante da massa, dificultando qualquer forma de luta social que cause qualquer efeito. Isso ocorre principalmente pelo fato da lei  proteger  os interesses de determinadas empresas e em função do desconhecimento da população diante da gravidade desse assunto.

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