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Archive for 16 de setembro de 2009

No fragmento do poema retirado da obra Morte e Vida Severina do escritor João Cabral de Mello Neto, Severino, retirante, na sua enfadonha caminhada rumo ao Recife, acompanha um enterro e escuta o discurso feito pelos amigos do morto ao chegarem ao cemitério.

morte e vida severina

Tal discurso nos apresenta a imagem de um homem pobre, nordestino, que durante sua vida foi obrigado a trabalhar em terras alheias em condições precárias para garantir sua sobrevivência.

A situação é um retrato da vida de milhares de homens pobres que têm sua mão-de-obra explorada de forma indiscriminada, além de manterem com seus senhores de terras relações de favor, mando e obediência, uma das razões para isso é o fato deles não possuírem os próprios meios à sua subsistência a fim de poderem viver de forma digna.

O texto é, sobretudo, uma crítica a má distribuição de terras e denúncia das condições precárias pelas quais passam parte da população brasileira alijada de possuir um bem que todos deveriam ter acesso: a terra.

– Essa cova em que estás,

com palmos medida,

é a cota menor

que tiraste em vida.


– é de bom tamanho,

nem largo nem fundo,

é a parte que te cabe

neste latifúndio.


– Não é cova grande.

é cova medida,

é a terra que querias

ver dividida.


– é uma cova grande

para teu pouco defunto,

mas estarás mais ancho

que estavas no mundo.


– é uma cova grande

para teu defunto parco,

porém mais que no mundo

te sentirás largo.


– é uma cova grande

para tua carne pouca,

mas a terra dada

não se abre a boca.


– Viverás, e para sempre

na terra que aqui aforas:

e terás enfim tua roça.


– Aí ficarás para sempre,

livre do sol e da chuva,

criando tuas saúvas.


– Agora trabalharás

só para ti, não a meias,

como antes em terra alheia.


– Trabalharás uma terra

da qual, além de senhor,

serás homem de eito e trator.

– Trabalhando nessa terra,

tu sozinho tudo empreitas:

serás semente, adubo, colheita.


– Trabalharás numa terra

que também te abriga e te veste:

embora com o brim do Nordeste.


– Será de terra

tua derradeira camisa:

te veste, como nunca em vida.


– Será de terra

e tua melhor camisa:

te veste e ninguém cobiça.


– Terás de terra

completo agora o teu fato:

e pela primeira vez, sapato.


– Como és homem,

a terra te dará chapéu:

fosses mulher, xale ou véu.


– Tua roupa melhor

será de terra e não de fazenda:

não se rasga nem se remenda.


– Tua roupa melhor

e te ficará bem cingida:

como roupa feita à medida.

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