Era de manhã, caia uma fina garoa. A Avenida do Cursino em São Paulo se encontrava completamente deserta, até então, antes do acidente, tudo era silêncio e paz.
O motoqueiro estava sem capacete e morreu na hora. Sua moto uma falcon, cor vermelho sangue, tinha voado metros de distância, ficando completamente estraçalhada. O motorista do carro, causador do ocorrido, negou socorro e saiu cantando pneu feito um louco.

Subitamente, pessoas começaram a aparecer como se brotassem do chão. Mulheres, crianças, homens, aparentavam velar o corpo ensangüentado. O rapaz tinha seus vinte poucos anos e uma vida toda pela frente.
Nesse instante aquele corpo sem vida, servia de vitrine de um produto exposto para satisfazer a curiosidade mórbida de todos ali presente.
Entre comentários e lamentações as pessoas observavam a fragilidade da vida em toda sua plenitude.
Um dia feliz e no outro a boca fica cheia de formiga, lamenta um senhor.
A todo instante alguém procurava um culpado… Todos estavam alvoroçados, o tédio por um momento deixou de existir, a existência voltou a ser superestimada.
Que ele sirva de exemplo, pensou alguém na multidão. Um brinde a vida! Curiosamente, muitos ficavam satisfeitos com aquela situação.
O drama, o mundo de vidro prestes a quebrar e a frágil consciência da humanidade, geravam questionamentos…
Minutos depois do ocorrido, na Avenida Edson Ramalho em João Pessoa, a engrenagem do caos volta a funcionar, a vítima, outro rapaz que tinha seus vinte poucos anos e a trágica velha historia que ele nunca vai poder contar.
